Conquista no Tibau: Escolinha do Professor Luis

No dia 16 de Dezembro de 2023, os alunos da Escola de Capacitação de Guias do CNM, como parte da aula de Conquista do Guia Luis Avellar, conquistaram a Via Escolinha do Professor Luis no Setor do Tibau em Piratininga.

Via Escolinha do Professor Luis – IIIsup E2 D1 40m
Conquista: 16/12/2023
Conquistadores (ordem alfabética): Daniel Candiotto, Leticia Lopes, Luis Avellar, Marcos Lima e Waldino Santos.

Atividade Oficial: Garrafão – PARNASO

Garrafão

Por Leandro do Carmo

GARRAFÃO – PARNASO

Dia: 12/08/2023

Local: Parque Nacional da Serra dos Órgãos

Participantes: Leandro do Carmo, Michel Cipolatti, Luís Avelar, Nicolas Loukides, Ezequiel Gongora, Leonardo Farias, Higor Souza, Leonardo Carmo e Marina Fernandes

Histórico da Conquista do Garrafão

O Garrafão, à época conhecido como Fagundes, foi conquistado em 28/10/1934 por Émérico Hungar, Gilberto Ferrez, Geoffrey Edwards e W. George Andrews, todos eles membros do Centro Excursionista Brasileiro. Foi um período de grandes conquistas no montanhismo brasileiro e sua dificuldade técnica, bem como a distância, o tornam menos frequentado, se comparado a outros cumes da região.

Horários e pontos de referência da Trilha do Garrafão

5h – Saída de Niterói; 6h 30 min – Entrada do Parque; 7h 49 min – Início da trilha (Barragem); 8h 40 min – Abrigo 2; 9h 30 min – Bifurcação Paredão Paraguaio (Pausa 10 min); 9h 55 min – Trilha da Pedra da Cruz; 10h 02 min – Trilha do Sino; 10h 38 min – Abrigo 4 (Pausa 20 min); 11h 10 min – Início da subida da Pedra do Sino; 11h 20 min – Cume da Pedra do Sino (Pausa 10 min); 12h 10 min – Buraco; 12h 24 min – Cabo de Aço; 13h 15 min – Cume do Garrafão; 13h 45 min – Saída do Cume do Garrafão; 15h 30 min – Saída do Buraco; 16h 18 min – Cume do Sino; 16h 40 min – Abrigo 4; 17h 17min – Bifurcação Morro da Cruz; 17h 38 min – Abrigo 3; 17h 45 min – Bifurcação Paredão Paraguaio/Trilha do Sino; 19h 05 min – Véu da Noiva; 19h 55 min – Barragem; 20h 20 min – Carro.

Dicas para chegar ao cume do Garrafão

Para chegar ao Garrafão, primeiro é necessário chegar à Pedra do Sino. Do cume da Pedra do Sino, já é possível ver o Garrafão. Devemos ir em direção a ele num misto de laje e pequenos trechos de vegetação. Desce até um vale e depois sobe novamente até chegar à borda de frente ao Garrafão. Nesse ponto, vem o primeiro trecho técnico, onde deve-se procurar um buraco, dentro dele podemos descer desescalando um lance em chaminé ou fazendo um pequeno rapel, numa proteção que fica no alto. Convém deixar uma corda curta (10 metros) fixa no local para auxiliar a volta. Depois desse trecho, segue até o cabo de aço. Existe uma parada dupla onde dá para fazer um rapel. Com uma corda de 60 m meada, não dá para chegar ao final. Um pouco mais abaixo, há um grampo onde dá para rapelar com uma corda meada de 60 metros. A mesma pode ser usada para segurança na volta. Optamos por dar segurança de baixo, fazendo com que subíssemos de top rope, progredindo pelo cabo de aço. Facilitou e agilizou bastante. Após esse trecho, pega-se uma trilha subindo, até chegar a uma canaleta exposta. Há uma proteção no início e uma bem mais acima, onde é possível montar um corrimão para dar mais segurança. O trecho está bem erodido e está bem exposto. Há uma corda fixa numa raiz. Muito cuidado ao utilizá-la. Acima, pega-se um trecho exposto com lance fácil de escalada, onde tem um grampo para proteção. Dali para o cume são mais alguns metros.

Wikiloc – Garrafão

https://pt.wikiloc.com/trilhas-trekking/garrafao-parnaso-143689302

Relato da Trilha do Garrafão

Três semanas depois de ter feito a Agulha do Diabo, estava de volta ao Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Agora para fazer o Garrafão. Mas a ideia surgiu na semana seguinte a Agulha do Diabo, quando perguntaram qual seria a próxima escalada? Como eu ainda não havia feito, sugeri o Garrafão. Todos aceitaram. Aproveitei para abrir a atividade no Clube Niteroiense de Montanhismo, dando oportunidade para outros amigos também conhecerem a montanha. Convidei, também o Ezequiel (Ziki), depois de o ter encontrado no CEB. Meu irmão e a Marina se juntaram a nós, confirmando somente na sexta-feira, véspera da escalada. Ao todo, éramos 9 montanhistas. Grupo relativamente grande, principalmente se levarmos em conta os trechos técnicos na qual passaríamos, sendo o principal, os 30 metros de ascensão obrigatórios, no colo entre o Garrafão e o Sino, no retorno do cume. Mas como todos eram escaladores experientes, com exceção da Marina, acho que não teríamos problema. E não tivemos!

Saímos pontualmente as 5h da manhã de Niterói e chegamos ao PARNASO um pouco mais cedo do que a última vez, sendo o segundo carro da fila. Ficamos ali conversando até dar 7 horas e o parque abrir. Fomos direto para o Centro de Visitantes preencher os termos e de lá seguimos para a área de estacionamento, onde deixamos os carros e seguimos até a barragem, local de início da caminhada, propriamente dita. Estava uma manhã agradável e não fazia tanto frio, comecei a andar apenas com a segunda pele. Havia um grupo grande que também faria o Garrafão. Eles tinham programado de pernoitar no Sino e atacar o cume no dia seguinte, mas como a previsão do tempo era mudança para o dia seguinte, resolveram que iriam hoje mesmo. Mas como estavam com bastante peso para o pernoite, com certeza seriam mais lentos e chegaríamos bem à frente. Ainda encontramos mais um grupo de CNM, guiados pela Ana, que iriam para a Travessia da Neblina. Bom, era hora de começar a andar.

Entramos na trilha do Sino por volta das 7h 50 min. Foi uma subida tranquila. Passamos por alguns grupos que haviam subido primeiro e também encontramos com outros que já estavam descendo do Sino. Fomos num bom bate papo e logo passamos pela Cachoeira do Véu da Noiva. Continuamos a subida, já chegando aos pontos onde era possível ver a cidade de Teresópolis ao fundo. O dia estava firme, prenúncio de uma excelente caminhada. Paramos na entrada da trilha do Paredão Paraguaio, onde fizemos um rápido descanso. Dali seguimos subindo e as 10 horas entramos novamente na Trilha da Pedra do Sino. Até ali, nenhuma novidade. Já havia percorrido esse caminho inúmera vezes. No ritmo que estávamos, nem tinha muito tempo de aproveitar o caminho. Nosso objetivo era chegar logo ao Abrigo 4. A partir dali sim, poderíamos curtir o caminho. Passamos pela entrada da Trilha do Papudo e mais a frente, depois de nos afastarmos um pouco dessa vertente, conseguíamos ver o cume do Papudo ao fundo. Cruzamos um trecho bastante molhado e com 40 minutos de caminhada havíamos chegado ao Abrigo 4, eram 10 h 40 min da manhã. Fizemos o trecho em 2h e 50 minutos, um excelente ritmo. Só tinha uma barraca montada. Aproveitamos para fazer uma parada mais longa. Fiz um lanche reforçado e deixei uma garrafa de isotônico guardada num buraco próximo ao abrigo para a volta, não queria levar peso extra.

Abasteci minha garrafa de água e fomos em direção ao cume da Pedra do Sino. Nem percebi a discreta saída e quase perdi a entrada da subida. Rapidamente estávamos aos pés do totem de cimento, que fora reconstruído após ser atingido por um raio alguns anos atrás. Aproveitei para fazer algumas imagens com o drone, o que nos fez ter que fazer mais uma parada rápida. Já podíamos ver o Garrafão ao fundo. Fomos descendo em sua direção e o caminho não muito bem definido. Andar em laje de pedra é muito complicado, mas o dia estava bem aberto e foi mais fácil ver os totens e algumas fitas amarradas nos arbustos. E assim, seguimos serpenteando. Passamos por alguns trechos mais fechados, porém, no geral foi tranquilo essa primeira parte. De longe não dá para perceber, mas assim que fomos nos aproximando do Garrafão, tivemos que atravessar um vale. Do outro lado desse vale, podia ver um grande totem. Deveríamos seguir em sua direção, mas alguns totens e fitas nos distanciavam, forçando-nos a contornar esse vale bem mais para a esquerda. Descemos um longo trecho e passamos por um trecho bem fechado e confuso. A sorte é que era curto. Assim que voltamos a subir, já próximos do totem que havia visto lá de cima, é que pude perceber o motivo de termos que nos distanciar tanto: um trecho bem íngreme e intransponível. Descer em linha reta era impossível. Continuamos a caminhada por esse labirinto, sempre guiados pelos totens.

Estávamos cada vez mais próximos do Garrafão. A vista impressionava. Daquele ponto, parecia ser impossível alcançar o cume. Nosso objetivo agora era chegar a um buraco, onde desceríamos até chegar ao cabo de aço. Fomos procurando, sempre seguindo pelo caminho mais óbvio até que conseguimos achá-lo. E olha que não muito óbvio assim. Fica meio escondido, numa passagem entre a vegetação. Dali, descemos e entramos numa gruta. Fixamos uma corda e fomos descendo um a um, usando a técnica de chaminé. Rapidamente descemos e começamos a montar o rapel para iniciarmos nossa descida para o colo entre essa vertente do Sino e o Garrafão. Optamos por montar o rapel num grampo mais abaixo, dali conseguimos dobrar a corda e deixá-la meiada, dando exatos trinta metros. Se fossemos usar as chapeletas de cima, talvez precisássemos de uma corda de 70 metros, mas mesmo assim, não posso afirmar que chegaria. Fomos descendo um a um. O trecho estava bem molhado e a rocha é bem lisa. O cabo de aço está em boas condições. O rapel foi bem tranquilo, o maior problema seria para subir. Optamos por deixar duas cordas, assim poderíamos dar segurança de baixo para que pudéssemos subir pelo cabo mais rapidamente.

Fui um pouco mais para cima, para poder ver de longe a descida. Era um trecho bem bonito. Comentamos sobre a audácia da conquista, pois ali era o caminho mais óbvio para essa descida, sem contar que achar aquele buraco não deve ter sido uma tarefa fácil. Era uma galera a frente do seu tempo. Uma conquista de 1934, que hoje em dia, mesmo com todo equipamento que temos disponível, ainda é um marco para os montanhistas. Assim que todos passaram, iniciamos a subida e o ataque final ao cume. Faltava pouco. Seguimos em direção a uma canaleta bem íngreme. Subimos um trepa pedra e na base desse trecho, uma corda meio velha amarada num arbusto serviria para nosso apoio. Ali era um trecho que merecia uma segurança melhor, mas começamos a subir usando a corda só como um apoio moral. Tem algumas agarras boas na lateral direita na qual davam um bom suporte. Fui subindo, sempre procurando os trechos mais sólidos, até que passei pelo arbusto onde a corda estava amarrada. Dali pra cima, fui caminhando e procurando o acesso ao cume. Vi uma laca apoiada e não tive dúvida de era por ali, era o único caminho possível. Segui subindo e o trecho foi tranquilo, apesar da exposição. Mais alguns metros e estava no cume.

A vista dali era algo impressionante. Como o dia estava aberto e firme, conseguíamos ver boa parte da Baía de Guanabara. Por todos os lados as montanhas despontavam de forma magnífica. De um lado era possível ver o São Pedro, Agulha do Diabo, São João, Santo Antônio, Três Marias, Dedo de Deus, Dedo de Nossa Senhora, Escalavrado, entre muitas outras. Para o outro lado, conseguíamos ver boa parte do caminho da Travessia Petrópolis x Teresópolis. Geralmente estamos lá e a vista que temos para o Garrafão, chama a atenção e vira referência. Há uns meses atrás, tive o prazer de ver o Garrafão por esse ângulo e lembro que na época, a vontade de estar nesse cume fantástico foi grande. Pensei: “Vou subir nessa temporada.” E hoje estava ali vendo e relembrando o caminho que havia feito há uns dois meses atrás. Aproveitei para filmar com o drone e fazer algumas fotos. Assinei o livro de cume e descansei um pouco, o suficiente para o retorno. Dentro da nossa programação, ficaríamos no cume por 30 minutos. E assim que bateu o tempo, iniciamos nosso retorno.

Iniciei a descida e cheguei naquele ponto do arbusto onde a corda está amarrada. Desci com bastante cuidado e logo estava na base, auxiliando a descida dos demais. Lentamente, passamos o trecho e seguimos descendo até a base do cabo de aço. Encordoei-me numa ponta de corda e subi utilizando os cabos, sob segurança do meu irmão. Estava bem molhado e o que eu pressenti na descida, se confirmou na subida. Como estava molhado, alguns trechos escorregavam bastante. Tinha que tentar me manter perpendicularmente a rocha, mas isso demandava um esforço maior nos braços. Até que subi bem rápido, pois quanto mais parado ficasse, mais esforço faria. Ao longo da subida, percebi que a corda da segurança estava com um arrasto grande e só fui ver o motivo quando cheguei à parada. As cordas haviam sido passadas em mosquetões que estavam paralelos e um acabava fazendo uma força sobre o outro, gerando um atrito extra e, além disso, a fita na qual esses mosquetões estavam presos ao grampo era curta. Assim que o Luis subiu, pedi para aguardarem e precisei de uns 5 minutos para reorganizar o nosso sistema e otimizar a subida. Com tudo certo, joguei a outra ponta de corda para baixo e aos poucos todos foram subindo. Faltando três subirem, chegou um grupo de Nova Friburgo. Eles aguardaram um pouco até que todos subiram. Dali, seguimos para a gruta, onde tínhamos que voltar por uma corda fixa que havíamos deixado. Fizemos o lance de chaminé e nos reunimos na laje ao lado do buraco. Ali, tiramos o equipamento e organizamos todo o material que não seria mais usado. Aproveitei para comer algo rápido, era 15 h 30 min. O astral do grupo era excelente, faz a diferença a boa companhia. Dali, pudemos acompanhar a entrada de nuvens pesadas. Parecia que a virada do tempo prevista para a noite havia se antecipado. Estava convicto de que choveria em pouco tempo. Com isso, iniciamos rapidamente nosso retorno, ainda passaríamos por alguns trechos de difícil orientação. Em pouco tempo o Garrafão foi tomado por nuvens que se movimentavam numa velocidade absurda.

E seguimos caminhando. Senti alguns pingos, mas não quis colocar o anorak, na esperança de que não aumentasse. Cruzamos o capinzal e começamos a subir. Nos trechos mais íngremes estava escorregadio, mas ainda conseguíamos progredir com segurança. Se aumentasse a chuva, acho que ficaria mais complicado. Da mesma forma que as nuvens chegaram, elas se dissiparam e em pouco tempo, mais nenhum sinal de chuva e seguindo os totens, atingimos novamente o cume da Pedra do Sino. Eram 16h 18 min, havíamos completado cerca de 75% da nossa atividade. Apesar desse trecho final ser longo, a divisão leva em conta, também o grau de dificuldade. Agora era só descer. Ficamos pouco tempo no cume e seguimos direto para o Abrigo 4. Alguns decidiram descer direto. Eu aproveitei para lanchar e descansar um pouco mais para a descida. Num ritmo constante e automático, segui descendo, dando apenas duas paradas rápidas na bifurcação para entrada da trilha do Paredão Paraguaio e no Véu da Noiva. Assim que a noite caiu, peguei a lanterna e ela não funcionou. Ainda bem que o Ziki me emprestou uma reserva. Cheguei à barragem por volta das 19h 45min e dali, fui direto ao carro. Aos poucos todos foram chegando e aproveitei para pegar o carro e voltar até a Barragem para dar uma carona aos que chegaram por último. Pegamos os carros e seguimos, parando no primeiro Posto, para fazermos um lanche e seguir viagem. Missão cumprida!

Conquista do Pr. Inoã

RELATO DA CONQUISTA DA VIA PAREDÃO INOÂ – MARICÁ

 

Conquistar uma via no Monumento Natural Pedra de Inoã tem as suas dificuldades e recompensas. Por ter suas paredes irregulares, com muitas fendas, diedros, platôs, trechos negativos e muita vegetação, é difícil escolher uma linha. E foi durante a conquista da via Bernardo Collares Arantes, em meados de 2020, que surgiu o desafio de tentar conquistar uma via que atravessasse a maior extensão da parede voltada para Inoã, aquela que damos “de cara” quando chegamos em Maricá descendo a serrinha pela RJ vindo de Niterói.

Foto 1: Face noroeste do Monumento Natural Pedra de Inoã

 

Primeira dificuldade encontrada: não há trilha para a base! Foram três investidas de abertura de trilha, em junho de 2020, para se chegar na base, bem bonita por sinal. Só nesta etapa já temos muita história pra contar: espinhos, mosquitos, cobras, queda de bloco com pé preso… Se eu pudesse dar nome a esta trilha, a chamaria de “Trilha do Cipó”.

Ainda em junho, fomos eu, Michel Cipolatti, com Juratan Câmara e Zoé Caveari na primeira investida de parede. Conquistamos cerca de 90 metros de via, que variam entre 3° e 4° graus. Foram instaladas sete chapeletas Pingo e utilizadas três proteções móveis, já no 2° esticão.

Foto 2: Juratan Câmara na trilha

 

No mês seguinte, conquistamos mais 60 metros de via, com a instalação de quatro chapeletas e um móvel, passando por uma barriga que sugerimos ser um 5° grau.

Na terceira investida, já em outubro de 2020, conquistamos mais cerca de 60 metros de via passando por um diedro com boas colocações de proteções móveis. Foram instaladas três chapeletas na ascensão e mais uma durante o rapel para reduzir a exposição de um lance que ficou “meio perrengue”.

Foto 3: Zoé Caveari escalando, vista da terceira parada dupla

 

Neste trecho, a via se aproxima de uma “florestinha”, que fica no alto da parede, e ao redor, é repleta de bromélias. Na investida de novembro, com mais 60 metros de via e alguns lances em aderência, chegamos na misteriosa florestinha. Ela fica a cerca de 270 metros da base e tem árvores de grande porte. Impressionante!!!

Para acessar a primeira árvore, que serve de ancoragem e ponto de rapel até a parada dupla (foto 4), foi necessário aprimorar a técnica de “transposição de bromélias”, tentando não machucar a planta e não molhar os pés. Tentamos ao máximo contornar a vegetação, mas chegou uma hora que não conseguimos mais.

O ano de 2020 se foi e o projeto ficou adormecido por mais de um ano. Durante uma conversa com Leandro do Carmo e Luiz Avellar, numa reunião social no CNM, decidimos dar andamento à conquista. Quando contei a história do que já estava conquistado, eles caíram na armadilha. kkkk

Combinamos de ir no dia 16 de janeiro de 2022. Isso mesmo, no verão! Escalamos o trecho conquistado e chegamos na florestinha exaustos. O objetivo era explorar em busca de uma nova base para dar sequência à via, que ganhou uma trilha no meio da parede. Não é só bater grampo que dá trabalho não. Abrir trilha também tem suas dificuldades: escolher o caminho, levando em conta a direção desejada e os obstáculos pela frente, como espinhos e cipós. Sem contar os marimbondos que nos atacaram.

Foto 4: Michel Cipolatti, Leandro do Carmo e Luis Avellar na “florestinha”

 

Foi o maior perrengue. Para cima tem um grande buraco, com um teto que se vê da estrada, parecendo um olho. Tentei pela direita, mas achamos uma base de uma linha aparentemente muito difícil de conquistar em livre. Luis decidiu tentar pela esquerda e encontrou outra base, numa linha menos vertical. Batemos duas chapeletas até chegar em uma barriga e as forças acabaram. Rapel.

Tentamos combinar a próxima investida, mas perdemos algumas datas por causa das chuvas ou por outros compromissos, então tentei uma investida em solitário. Chegando mais uma vez na florestinha exausto, e dessa vez com câimbras, bati apenas uma chapeleta e a barriga estava muito difícil, o que causou a impressão de não ser uma boa linha, além de haver muita vegetação logo acima. Cheguei também à conclusão de que não dava para ir sozinho.

Combinamos eu e o Luis uma investida no dia 11 de dezembro de 2022. Entramos na trilha às 5:30, subimos na intenção de terminar a via e descer por trilha.

Foto 5: Luis Avellar escalando

 

Escalamos rápido e às 9:15 já estávamos na florestinha, possível P6. Mais uma vez, ficamos incomodados com a base encontrada naquela investida, e resolvemos explorar mais para a esquerda. Fomos por caminhos diferentes e chegamos juntos a uma outra base, desta vez na direção do “blocão” do Mirante que tem no cume. Perfeito! Era a minha intenção terminar a via lá, por já ter trilha de descida e por desconfiar de que encontraríamos uma chaminé, o que deixaria a via mais “completa”.

Abandonamos então as três últimas chapeletas e partimos para essa nova linha. Parecia ser fácil, mas deu trabalho, com muito regletinho e sem descanso. Sugerimos outro quinto grau pela sequência. Batidas quatro chapeletas, a via vai um pouco mais para a esquerda e vai ficando mais fácil até chegar no blocão após passar por mais bromélias. Que lugar lindo! Sombra, um banquinho de pedra e uma caverninha. Perfeito para o descanso e para apreciar a paisagem. Já foram 50 metros de via conquistados nesta data. Para cima um grande negativo. Então, ao contornar pela esquerda, mais uma surpresa: uma fenda maravilhosa para ser escalada “em chaminé”.

Foto 6: Michel Cipolatti conquistando a chaminé

 

A chaminé assusta, por ter blocos entalados que podem cair. Recomenda-se o participante fazer a segurança de fora da chaminé, preso em uma árvore, enquanto o guia avança por dentro da chaminé por cerca de 20 metros, com duas colocações de móveis, até encontrar uma boa saída, parecendo uma janela. A chaminé continua, mais estreita, mas a janela foi mais convidativa, onde preferi sair e instalar a última parada dupla da via.

Durante a subida, o Luis derrubou alguns blocos que estavam entalados na chaminé mas estavam soltos. Só não contava que ia soltar um monte de terra junto e ele ficou “empanado” de sujeira. A partir dali, a via vira uma escalaminhada de uns 50 metros com algumas bromélias no caminho até chegar no mirante. Chegamos no cume às 15 horas, exaustos e quase sem água, mas com o alívio de termos conseguido completar o desafio.

Foto 7: Michel Cipolatti e Luis Avellar no final da via

 

Descemos pela trilha, que é bem íngreme, leva cerca de 1 hora e meia descendo, e termina na estrada, porém, do outro lado da montanha. O resultado é uma nova via com uma grande diversidade de técnicas, como a escalada em agarras, em aderência, chaminé e o uso de equipamentos móveis. Fica, agora, a recompensa de entregar aos escaladores, no dia 11 de dezembro de 2022, mais uma bela e exigente via, toda conquistada em livre, e digna de receber o nome de “Paredão Inoã”.

 

Para acessar o croqui

O DIA MUNDIAL DA LIMPEZA

No dia 18 de setembro de 2021 o CNM participou do Dia Mundial da Limpeza. Este dia, marca a união vários países e milhões de pessoas em todo o mundo em torno de um objetivo comum: promover a consciência da necessidade de preservação do nosso planeta, através de ações de limpeza, em rios, trilhas, mangues e praias.

Essa ação mundial cresce desde 1986, e no Brasil ocorre desde 1993. A proposta inicial realizar a limpeza das praias, entretanto percebeu-se que outros locais também necessitavam dessas intervenções, como mangues, margens de rios e trilhas.

A ações realizadas no Dia Mundial da Limpeza simbolizam uma rede forte e única de agentes que compartilham a visão de um mundo livre de resíduos, baseada na prática do 5 R’s da sustentabilidade: Repense, Recuse, Reduza, Reutilize e Recicle, que visa minimizar o impacto ambiental causado pelo desperdício de materiais.

Diante disso, nós montanhistas do CNM, comprometidos essas práticas sustentáveis, de cuidado com a natureza e sendo parte dessa rede de agentes, fomos contribuir nessa ação.

Como o dia mundial da limpeza já faz parte da agenda municipal, a prefeitura de Niterói promoveu e apoiou, oferecendo sacos de lixo e água potável aos voluntários, várias ações por toda a cidade.

O CNM escolheu trabalhar no Trecho final da trilha Travessia São Francisco x Cafubá.

O evento organizado pela diretoria de meio ambiente do CNM, Alice Selles e Eny Hertz, pela diretoria do uso público do PARNIT, Alex Figueiredo, contou com participação de 10 sócios. Também estiveram presentes uma funcionária da Prefeitura, Leila, e voluntários do PARNIT.

Todo o material residual coletado numa manhã de trabalho foi contabilizado e classificado. Ao todo foram coletados 10 sacos de 100L e 3 sacos de 300L de materiais de vários tipos, tais como: vasilhames e sacos de plástico, trapos de roupa, chinelos de borracha, capacete de motocicleta, bujãozinho liquinho entre outros materiais. A maior parte dos resíduos parecia ser antigo do local.

Essa ação foi muito importante, pois impediu que esse material fosse levado por uma chuva forte para o Sistema Lagunar de Itaipu, reduzindo assim o risco de entupimento da rede pluvial do Bairro Cafubá.

Parabéns a todos que participaram dessa ação ambiental. A natureza agradece!

 

Relato de conquista da via “Gaia Vive”

Relato de conquista da via “Gaia Vive”

A primeira conquista na montanha a gente nunca esquece!

Por Gabriel O. de Carvalho

Era um sonho antigo meu praticar escalada em São Gonçalo, porém a falta de locais de escalada estabelecidos e o problema da violência urbana, que infelizmente ocorre em grande parte da cidade, sempre me impediram. Contudo, um tempo atrás ouvi falar de um lugar chamado Alto do Gaia, as descrições faladas do local já me chamaram a atenção, ouvi que tinha um paredão lá, que o entorno era rural e que era um local conhecido por praticantes de trekking e motocross, além de ter sido recentemente transformado em Área de Proteção Ambiental (APA).

Esse interesse ficou latente por meses (eu nem nem tinha visto fotos do lugar ainda!), até que resolvi pesquisar sobre o lugar e quando vi as fotos, pirei. Comentei com o Matias (Vinicius Coutinho) e também com o Zé Gabriel, que me alertou já estar de olho nessa montanha há um tempo e que inclusive já existia uma via conquistada lá: Realidade da Laranja (Paredão São Gonçalo) 3º-V. Via esta conquistada por P.C. Caliano, Rodolpho Pajuaba e Juratan Câmara, em 1985. Possivelmente a primeira e, até então, única via de escalada em montanha de São Gonçalo?

No dia 16 de maio de 2021, um domingo, após convencer o Zé Gabriel, partimos para a conquista do Gaia. A aventura já começou no trajeto de carro para chegar lá, dos três caminhos que o Google Maps nos recomendou escolhemos o que julgamos ser o mais seguro: entrando por Maricá. O único problema era a condição da estrada, toda de terra e mais parecia uma trilha de motocross, de fato, na quase 1h de trajeto os únicos doidos de carro por lá éramos nós, acompanhados pelos motoqueiros que desviavam com facilidade dos buracos e piscinas gigantes na estradinha. Após muito sufoco, chegamos em Gaia, mas pelo lado oposto, queríamos acessar a face oeste-sudoeste. Felizmente encontramos um morador que conhecia muito bem o local e nos deu o caminho da pedra, nos poupando muito tempo.

Foto 01: visão do paredão a partir da trilha de acesso à nova via.

Quando chegamos lá, mesmo tendo visto as fotos e relatos, nem acreditei que o município nos guardava esta pérola. Um local de características rurais e um visual incrível. A montanha era linda, e ao avistá-la ambos concordamos em ir na direção do vale, face sudoeste, para explorar em busca de uma via um pouco mais vertical. O caminho foi bem fácil, sendo curto e com visão da montanha quase o tempo todo, por isso chegamos na montanha sem muito esforço. Importante frisar que a trilha passa por uma propriedade privada, porém o dono foi bem receptivo, não viu problema com a nossa presença e inclusive nos deu dicas para chegar lá.

Logo no início da trilha, o Zé ficou louco por uma fenda. Confesso que eu não tinha dado muita bola a ela porque uns 30 m acima dava pra ver que ela entrava numa vegetação arbustiva; fiquei com medo da linha não ter continuidade. Após uma explorada fui convencido a entrarmos nela. Como o Zé estava mais animado concordamos em ele guiar esse primeiro esticão. Zé conseguiu guiar com poucas proteções precárias em móvel e protegendo nos arbustos que ficavam no topo. Com exceção do ataque de formigas e de muitas pedras soltas com risco de me acertarem, ele guiou 50 m da cordada em móvel sem maiores problemas.

 

Fotos 2 e 3: primeiros registros da via: Zé Gabriel na fenda inicial de 4º

Tivemos uma boa surpresa: o trecho de arbusto se estendia somente por uns 5 metros, logo após havia uma saída para pedra que parecia promissora do lado esquerdo. Foi aí que batemos a parada da via e eu comecei a guiada da segunda cordada. Nesse momento passava das 15h e o sol batia na pedra, porém esta parte de aderência estava bastante babada e suja de líquen. Fiquei bastante drenado com os lances, mas consegui progredir uns 15 m e bater duas chapeletas. Parei na parte que verticaliza, muitas agarras quebrando, o dia já estava terminando e a esta altura achei que só conseguiria passar do lance com cliff, e nem os tinha no dia. Voltamos para casa já no entardecer, mas aquela cordada ficou na minha cabeça a semana inteira. Não conseguia parar de passar como iria vencer aquele lance.

Foto 4: segunda cordada, os lances seguem na parte exposta de pedra indo pra esquerda e passando no único trecho sem vegetação.

Na semana seguinte voltamos eu e Zé Gabriel novamente, com a companhia de Alexandre Langer, João Neuhaus e Matias. O Zé guiou o lance, dessa vez com as peças móveis do Langer, deixando a enfiada muito bem protegida. Eu subi na sequência e logo já reiniciava a conquista da segunda cordada. Eu estava muito mais focado nessa investida, o lance que achei que faria só com cliff, dei uma escovadinha e passei em livre, protegendo logo em seguida. Segui na conquista muito bem mentalmente, apesar da aderência suja e dos regletes quebrando. Quando a corda já estava acabando achei um platozinho incrível, onde decidi fazer a P2, com 55 m.

Foto 5: João Neuhaus no platô da P2

Agora foi a vez do Langer tocar a sequência da terceira cordada, fortes rajadas de vento aconteciam nessa hora, aumentando a “drena”. A linha sai do platozinho pra esquerda, pegando uma fenda de uns 2 m onde ele protegeu com alguns friends e depois tocou pra cima passando à direita da vegetação. Depois da vegetação, uma surpresa! A nossa via esbarra num veio de cristais incrível que faz um corte em diagonal na montanha para a esquerda. Na hora a gente só escutava o Langer gritando de felicidade falando do que tinha encontrado. Ele tocou uns 45 m e decidiu fazer uma parada num ponto onde o veio começava a ter mais vegetação e ele percebeu que existia uma linha limpa para cima. O visual nessa parte é de tirar o fôlego, tínhamos uma visão ampla da região, inclusive da Baía de Guanabara e das montanhas ao fundo.

 

Fotos 6 e 7: Langer conquistando o início da terceira cordada (esquerda). Veio de cristais, um dos trechos mais bonitos da via (direita).

A próxima enfiada o Zé Gabriel tocou, segue uns lances de aderência mais tranquilos em linha reta, passando a esquerda de uma vegetação e chegando numa parada confortável (P4), a cordada ficou com 50 m. Infelizmente o dia já estava acabando e decidimos encerrar a investida.

Foto 8: lances em aderência da quarta cordada

Voltamos ao Gaia quando a janela de tempo permitiu. Repetimos todos os lances, e a quinta cordada, que era bem mais tranquila, foi conquistada pelo Matias que estava aprendendo, e pelo João. A maior parte dessa cordada é uma escalaminhada bem fácil, com um lancezinho de escalada no final para chegar na P5.

Foto 9: João passando uns betas de conquista para o Matias na quinta cordada.

A sexta cordada quem tocou foi o Zé, ela começa numa aderência salgada, talvez um V, por uns 10 metros, depois fica mais tranquila e vai até chegar numa parede vertical, onde ele contornou pra esquerda até chegar num lance de fenda bem maneiro. O doido tocou direto e o lance ficou bem exposto, depois eu e o Matias voltamos e intermediamos uma parte do crux.

 

Fotos 10 e 11: Zé conquistando a sexta enfiada (esquerda). Lances iniciais da sétima e última cordada (direita).

De presente de aniversário (eu faria 31 anos em poucos dias) deixaram a conquista da sétima cordada para mim. Apesar de já estar exausto do dia, essa parte da conquista foi irada. Começa protegendo em móveis em algumas fendas, e depois faz alguns crux em IVsup e V protegidos em chapeleta. Depois da parte mais difícil, aproximadamente 20 m, a via encontra uns lances com agarras e regletes bem maneiros até o final. Cheguei onde julguei ser um bom local para a parada já no fim do dia. A galera veio rápido subindo pela corda fixa. 

Com o horário avançado, o João foi na frente pra tentar achar alguma trilha para o cume, após uns 20 min ainda não sabíamos exatamente onde estávamos, decidimos a contra-gosto retornar via rapel. Nesse dia terminamos a via, mas sem saber, porque não achamos o cume e nem sabíamos se teria mais escalada.

Foto 12: minutos após bater a P7.

O cume só veio em outra investida, no dia 26 de junho de 2021, eu, Zé e Matias fomos com a missão de escalar a via inteira e de anotar as informações para fazer o croqui. Enfim, às 16h finalmente pudemos gritar “cumee”. Quis o destino também que a minha primeira escalada em São Gonçalo fosse também a minha primeira conquista em montanha, que privilégio. A via deve dar um quinto no geral, com cordada em fenda, aderência, regletes no vertical, veio de cristais em diagonal, e uns trepa matos também. 350 metros de muita aventura. Chamamos a via de “Gaia Vive”. Uma lembrança aos fragmentos de mata atlântica que ainda resistem, principalmente graças às nossas montanhas e áreas de conservação ????✊????.

Que venham as próximas!

Foto 13: o dia em que finalmente gritamos “cumeeee”

Início da trilha e local para estacionar o carro: https://www.google.com/maps/@-22.8599998,-42.9011246,128m (trajeto de carro por Maricá não recomendado devido às péssimas condições da estrada)

Para acessar o croqui, clique aqui.

 

Relato de escalada: Chaminé Cachoeiro – Pico do Itabira

Por Luis Augusto Avellar

No dia 4 de junho de 2021 fiz a minha primeira escalada clássica fora do Rio de Janeiro e, de longe, a minha via mais longa até hoje. A Chaminé Cachoeiro no Pico do Itabira, Cachoeiro de Itapemirin/ES. Foram 17h escalando e 26h até voltar para a base. Um tipo de via que você sai achando que nunca mais vai voltar, mas quando toca o chão da base na volta, dá aquela sensação única de missão cumprida. É uma vontade leve…, mas crescente, de voltar um dia. Nesta via teve Arbusto que virou personagem da escalada, um encontro contrariando todas as probabilidades, avistamentos de corujas brancas, seus filhotes e ninhos com ovos. Também teve ninho de urubu, corda prendendo no final da via, escalada varando a noite, bivaque não planejado e tudo que uma aventura precisa para ficar na memória de um montanhista.

Tudo isso começou com uma proposta do Leandro e Blanco. Fazer uma viagem para fora do estado para escalar. O objetivo era escalar a Chaminé Cachoeiro do Pico do Itatiba, uma escalada clássica do Espírito Santo próxima da cidade de Cachoeiro de Itapemirim. Na época não conhecia nada sobre o pico ou qualquer via do Espírito Santo, mas já gostei da ideia e comecei a me planejar. No início era uma escalada com duas cordadas de 2, mas logo se transformou em uma cordada de 3 com a desistência do Marcelo Correia. Ele ainda estava voltando a pegar o ritmo de escaladas mais fortes. Sendo assim, a cordada seria formada por mim (Luis Avellar), Blanco e Leandro do Carmo. Todos do CNM.

A viagem aconteceu no feriado de Corpus Christi entre o dia 3 e 6 de junho de 2021. No primeiro dia, fomos até o Pico do Frade com outras pessoas do CNM que estavam na viagem. A via é bem fácil e o acesso era próximo dos Chalés dos Frades, onde estávamos hospedados. No dia seguinte (sexta-feira, 4 de junho) iríamos acordar cedo para fazer a via. Porém nessa quinta sofremos mais uma baixa na cordada, o Leandro.

Na verdade, a baixa já era esperada, mas nesse dia tivemos certeza que Leandro não iria ter condições de ir. Durante o nosso treinamento para a via, subimos duas chaminés clássicas do Rio, a Chaminé Stop e Chaminé Gallotti no Pão de Açúcar. Na segunda começamos pelas duas primeiras enfiadas do lagartão e emendando na Gallotti. Na saída do lance da meia lua, num domínio de platô, Leandro acabou apoiando uma costela na rocha e acabou forçando ela durante o movimento. A costela não quebrou, mas gerou dores que impossibilitaram sua subida ao Itabira. O teste definitivo foi na subida dos degraus para o cume do frade na quinta-feira. Leandro teve muita dificuldade e percebeu que não tinha condições de encarar a via no dia seguinte.

Desta forma, fomos apenas eu e Blanco para tentar a via. Vimos instruções do acesso no guia de Escaladas Capixabas e lemos os poucos relatos de repetições. Pelos relatos percebemos que a via era bem estafante, longa, com muitos trechos de escalada fechados por vegetação e arvores secas. Alguns bons escaladores desistiram no meio e voltaram, outros tiveram que dormir no meio da parede e os mais bem sucedidos chegaram ao cume de madrugada, dormindo lá (o que acabou sendo o nosso caso). Também, como não sabíamos como seria o acesso ou se conseguiríamos entrar pela propriedade do pessoal do @eco_park_itabira (que descobrimos serem pessoas muito simpáticas e hospitaleiras). Saímos apenas no nascer do sol e já estávamos esperando descer no meio da via sem chegar ao cume.

No entanto, ao chegar na propriedade nos deparamos com o portão fechado. O filho dos proprietários nos encontrou por acaso. Ele disse que teríamos que marcara entrada com antecedência. Nesta hora já começamos a pensar que teríamos que abortar a missão. Porém, ao contatar a proprietária, ela disse que estava tudo acertado e que poderíamos entrar. Não entendemos na hora, mas subimos até o estacionamento da casa e fomos muito bem recebidos.

Nesse ponto aconteceu algo muito improvável que mudaria a nossa história no Itabira. De acordo com o pessoal local, a Chaminé Cachoeiro não havia sido repetida há pelo menos 2 anos. No entanto, contra todas as probabilidades, dois escaladores chegaram logo em seguida para fazer a mesma via. Os dois eram o Gustavo Diniz (@diniz.gustavo) e a Lívia Cardoso (@liviascardoso) do CERJ.

Eles já chegaram bem mais confiantes do que nós. Estavam bem equipados, com direito a clip stick, cobertor de emergência, muitos móveis e tudo que pudesse precisar para superar esse desafio. Eles nos propuseram fazer uma união de forças CERJ/CNM para vencer o desafio. Ainda afirmaram, “Não vamos descer antes de conquistar o cume!”

Essa atitude nos animou, mas ainda estávamos descrentes que seria possível terminar a via. Eu e Blanco combinamos de decidir se seguir com eles e avaliar se continuaríamos dependendo do andamento da escalada. O dead line para desistir seria 15h.

Seguimos para a base da via por uma trilha bem aberta com trechos de corda fixa e degraus de vergalhão até a base da via. O filho da proprietária nos guiou até quase na base da via. Avistamos o começo da subida, que era um misto de agarras e chaminé até a parada (P1).

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1° Enfiada

Começamos a escalar às 8h. Gustavo logo se prontificou a começar guiando, seguido pela Lívia. Ele puxou as mochilas com uma corda e logo subiu o Blanco e eu.

O começo da enfiado e relativamente fácil, com boas agarras e pequenos platôs. No final começa um trecho de chaminé mais larga em que precisa esticar bem as pernas, com as costas ainda na parede, para conseguir passar. Ali já deu para sentir o gostinho do que seria quase toda a via, que é predominantemente em chaminé, indo de muito estreita até larga.

Como a P1 era em um platô muito estreito (como iriamos ver em quase todas as paradas), o Gustavo seguiu para a segunda enfiada, enquanto Lívia e Blanco ficaram na P1. E eu acabei ficando pendurado pela corda no final da enfiada, meio sentado, meio entalado na chaminé.

2° Enfiada

Na segunda enfiada era necessário subir um pouco mais até um grampo “pé de galinha” antigo, montar um rapel e fazer um pêndulo saindo do primeiro sistema de chaminés para a P2 que fica bem abaixo de outra chaminé que corre em paralelo. No nosso caso, colocamos um móvel para servir de backup do grampo antig.

O pêndulo é um pouco desconfortável de fazer. O grampo fica bem dentro da chaminé e é preciso sair indo numa diagonal bem forte e curta para a direita. Algumas mão e pés bons na saída da chaminé ajudam a fazer o lance melhor.

Gustavo, chegou até a P2, seguido pela Lívia e já começou a adiantar a terceira enfiada. Eu e Blanco ficamos esperando na P1.

3° Enfiada

A terceira enfiada tem trechos de escalada expostos, em fenda, chaminé e agarras. Chega em um grampo alto dessa chaminé e faz um novo pêndulo para a direita até a P3. Gustavo decidiu sair do grampo anterior até a P3 em uma horizontal. Acabou funcionando bem, já que a fenda não é tão funda e a passada é um pouco mais fácil que a anterior. A P3 é uma parada dupla bem aérea, em que se fica pendurado apoiado em pés pequenos. Mais acima começa o terceiro sistema de chaminés que seguem em paralelo nessa parte. Essa segue até chegar ao cume.

Enquanto eu e Blanco estávamos chegando nesta parada, Gustavo começou a escalar até a P4.

4° Enfiada

A quarta enfiada começa com uma fenda pequena que se torna uma chaminé apertada. Essa chaminé é tão apertada que te obriga a tirar o capacete para conseguir virar a cabeça ou sair um pouco da chaminé, ficando bem mais exposto. Esse é um dos CRUXs da via, um VI grau. Durante essa parte Gustavo teve até que afrouxar um pouco a cadeirinha para conseguir passar.

Logo depois é preciso passar por uma vegetação no meio da chaminé que atrapalha bastante a passagem. Mesmo tentando desviar, volta e meia éramos “capturados” por galhos que entrelaçavam no equipamento e nos seguravam.

Gustavo parou em uma proteção dupla logo antes do segundo trecho de mato fechado, onde há blocos de pedras entaladas em uma chaminé média. Achávamos que ali já era a P4, já que esta dupla não estava no croqui. Acabamos contando as paradas errado até a P6 por conta disso. A partir daqui começamos a quebrar a cabeça tentando entender onde estávamos na via.

O “CRUX do Arbusto

Esse trecho merece um capítulo próprio. Essa via tem um Arbusto que acaba sendo um personagem próprio nesta saga. Tenho certeza de que nenhum integrante dessa cordada, das cordadas anteriores ou, possivelmente, das próximas vai esquecer desse elemento da natureza que se tornou um CRUX vivo da via.

Gustavo continuou guiando nessa parte, conseguiu mais avançar bem antes da P4 verdadeira. Aqui encontramos o nosso personagem. Ele estava solitário e tranquilo, em seu esplendor, no meio da chaminé que deveríamos passar. O Arbusto se mostrou bem mais fechado que o anterior. Parecia intransponível à primeira vista. Gustavo ficou bastante tempo tentando ver uma possibilidade de passar do arbusto. Chegou até a entrar mais na chaminé por trás dos blocos entalados e tentar passar por trás num buraco bem estreito, na esperança de contornar nosso amigo. Só que, o buraco não seguia muito adiante e terminava no meio desse arbusto.

As enfiadas até aqui acabaram sendo bem demoradas por conta dos pêndulos e do trecho de vegetação bloqueando o caminho. Já era perto de 14h e eu comecei a pensar que teríamos que começar a descer. Ainda faltavam muitas enfiadas e começamos a pensar, que dificilmente chegaríamos ao cume de dia. No entanto, vendo a dificuldade e empenho do Gustavo, resolvi ir até ele para ajudar. Chegando lá, encontrei Gustavo tentando subir entalado no buraco dando de cara no Arbusto de novo, agora pelo lado de dentro da chaminé.

Aquele trecho, de fato, parecia instransponível. Galhos se espalhavam por toda a passagem, bem resistentes e pontudos. Uma quantidade muito grande de galhos secos ainda ficava presa no emaranhado, piorando a situação. Não havia como contornar. Tínhamos que perturbar a paz do Arbusto. O único jeito foi passar por dentro dele em um trecho vertical sem a possibilidade de usar algum pé ou agarra da rocha.

Gustavo me deu uma segunda segurança por dentro do buraco me puxando para junto da rocha. Comecei retirando todos os galhos soltos que conseguia. Depois comecei a tentar mover alguns galhos para o lado para passar. Era bem difícil. Os galhos eram bem resistentes ao movimento. Com muito esforço achei um lugar melhor para empurrar. Gustavo retesou a corda, encaixei um pé na única parte acessível da rocha e subi uns 50cm, para dentro do arbusto.

A situação ali ainda era pior. Mais galhos por toda a minha volta, ainda mais resistentes, muitos na minha cabeça. Todo o equipamento agarrava a cada movimento. Não conseguia nem mover a cabeça direito para olhar em volta. A partir daqui tinha tantos galhos em volta de mim que tive certeza que não cairia mesmo que quisesse. Era mais fácil ficar preso de vez.

Consegui afastar alguns galhos bem duros, me espremer e passar devagar, lutando para o Arbusto me deixar passar. Tive que, efetivamente, “nadar” nos galhos, já que não conseguia mais alcançar qualquer parte da rocha. Uma hora o arbusto desistiu de mim e achou mais fácil me deixar passar. Mas até tirar a perna de dentro foi difícil. Por sorte (ou azar) o arbusto era tão forte que nem parecia que eu tinha passado por ali. Ainda estava intacto, mesmo depois dos puxões e pisadas que dei para passar. Cheguei, enfim, na P4 verdadeira (achando que era a P5).

Essa parada é na parte de baixo de um longo trecho de chaminé. O platô era bem pedregoso e apertado, passando uma pessoa por vez ou duas apertando, mas a chaminé era bem funda.

Dei segurança para o Gustavo, Blanco e Lívia, em seguida. Todos passaram com a mesma dificuldade e, mesmo depois do último, o Arbusto se manteve imponente e sólido onde estava. De fato, dá para considerá-lo como um CRUX da via em si.

 

Quando chegamos nesta parada já passava de 15h e tínhamos que fazer uma escolha. Descer dali ou continuar, correndo o risco de dormir na parede. Só que, o Gustavo e a Lívia, com sua animação característica, nos animaram a seguir. Disseram que as primeiras cordadas eram as mais trabalhosas por conta dos pêndulos e vegetação fechada e que poderíamos chegar ao cume ainda com luz. Na empolgação da passagem pelo CRUX do arbusto, fomos ingênuos em acreditar que ainda poderíamos dormir na pousada naquela noite.

Curiosamente, nessa parte e em uma enfiada acima, encontramos ninhos de corujas brancas, animal que nunca tinha visto antes. Gustavo chegou a ver uma coruja adulta voando e um ninho com um ovo. Eu só consegui ver um outro ninho em uma enfiada a frente com dois filhotes já nascidos e bem maiores do que imaginava para um filhote de coruja. Também, encontramos ninho de urubu com um ovo perto das últimas enfiadas.

5° Enfiada

Apesar do nosso otimismo inicial, a via não ficou mais fácil a partir daqui. Para cima haviam trechos técnicos e enfiadas mais longas. Além disso, boa parte da nossa energia havia sido consumida nas enfiadas anteriores e muita energia ainda seria necessária para as próximas.

Esta enfiada começou com Blanco substituindo o Gustavo na guiada. O trecho de chaminé era mais constante e de dificuldade média, mas bem longo. Em algumas partes precisa ficar bem esticado quando a chaminé ficava mais larga. Começamos a levar as mochilas penduradas na cadeirinha. A estratégia de rebocar todas as mochilas de uma vez, foi abandonada depois da luta da Lívia para empurrar as mochilas através do “CRUX do Arbusto”. Como eu e Blanco levamos apenas uma mochila, o primeiro da cordada subia mais leve, enquanto os demais subiram cada um com uma mochila pendurada.

Subi logo após o Blanco. A P5 é um pequeno platô de pedra no final do trecho de chaminé. Não dava para ficar em pé por conta dos galhos de uma arvore. Livia e Gustavo começaram a subir logo em seguida. Peguei um folego, bebi um pouco de água, dei uma olhada no croqui, deixei a mochila na parada e comecei a guiar a enfiada.

 

6° Enfiada

Como estávamos contando as paradas errado, achávamos que essa era a sétima enfiada. A enfiada que mais difícil da via. Terminar a 7° enfiada antes de escurecer seria um alívio. Sendo assim, me apressei e comecei a escalar na esperança de estar seguindo para a P7. Contornei a arvore e comecei a subir. Estava esperando dois grampos logo na saída, mas não encontrei nenhum. Pensei, “Pow, que estranho, né? Este croqui está muito errado…”. Fui subindo com alguma facilidade e cheguei em uma pedra entalada em forma de laca que dividia a chaminé em dois. Fui pelo caminho mais fácil, que era pela direita. Chegando ao tetinho que tinha desse lado ia passar para a esquerda da laca. Porém, não encontrei boas mãos ou pés e desisti da ideia de passar por ali. Tirei o móvel que tinha colocado ali e desci até uma “chapeleta esquisita” que tinha antes. Pensei, erradamente, comigo mesmo, “Haa! Esse deve ser o lance de VI da 7° enfiada… Tava na hora de chegar…”. Decidi seguir para o lado esquerdo meio em chaminé e agarras e passei bem pelo lance. Fiquei surpreso de ter feito um “VI”, com tanta facilidade. Cheguei na parada, que deveria ser uma parada natural, mas encontrei uma parada dupla num platô estreito que só cabia uma pessoa. Olhei mais adiante e lá estavam os dois grampos logo na saída da parada. Demorou para cair a ficha, mas era isso. Estava chegando na P6 e não na P7.

Perguntei pro Blanco se ele ia guiar a próxima enfiada. Ele pegou um folego, deixou a mochila comigo e logo começou a escalar enquanto os outros começavam a subir até essa parada.

7° Enfiada

Logo que Blanco começou, achou estranho um trecho tão exposto e forte naquela que deveria ser a 8° Enfiada. Nessa hora já estava escurecendo e todos estavam bem cansados, mas, finalmente, caiu a ficha que estávamos na P6 ainda.

Blanco foi protegendo em móvel onde dava e progredindo com calma usando uma headlamp. Em uma parte, tinha um galho enorme atravessando um lance bem atlético do VI. Ele testou o galho e pisou nele para avaliar o lance. Quando foi tentar avançar, ouço um estalo alto. O galho caio imediatamente e passando perto de nós abaixo. Baita de um susto. Por sorte não acertou ninguém e Blanco caiu pouco por conta de um móvel que tinha posicionado.

Após o susto, continuou seguindo aos poucos até que acabaram seus moveis e ele teve que fazer uma parada improvisada. Nesta hora, devido ao anoitecer, ao cansaço e a sensação de não saber muito bem onde estava na via, quase desistimos de continuar. Nem Lívia ou Gustavo estavam com disposição para continuar também.

Mas não tínhamos muita escolha. Blanco não conseguia descer de onde estava ou continuar. Não tínhamos muita noção do quanto faltava para a P8 e que tipo de lances ainda tinham que ser superados para chegar lá. Juntei um pouco de folego e comecei subir. Pensei, “Pelo menos, não preciso pendurar a mochila na cadeirinha. Dá para botar nas costas mesmo, pois não tem chaminé aqui. Que bom…”. Quando a gente está no sufoco é preciso ser otimista, né?.

Fui subindo os lances com o folego que tinha e consegui chegar até o Blanco. Chegando lá vi que ele tinha parado em um buraco onde ficava de lado. Deixei algum material com ele e continuei com os móveis tirei de baixo. Logo vi um piton antigo. Peguei o clip stick com o Blanco e clipei uma costura. “Pelo menos parece que estou indo no caminho certo.”. Continuei seguindo em um trecho de agarras e um trecho de chaminé até a parada natural. Enfim a P7.

Armei a segurança no começo do platô onde tinha uma arvore. Fiquei deitado e deixei a luz da headlamp apagada enquanto dava segurança para o pessoal subir. Tudo para juntar mais motivação para continuar escalando mais 3 enfiadas até o cume. Quem ia chegando buscavam encontrar algum lugar para sentar e descansar naquela parada. A parada era grande, mas não dava para chamar de confortável.

8° Enfiada

Já sabíamos que não iriamos dormir na pousa naquela noite. A dúvida seria, se iríamos dormir no cume ou se entregar ao cansaço e dormir sobre alguma pedra naquela parada. Ninguém tinha mais disposição para guiar a próxima. Mas nessa hora, Gustavo tirou o resto de energia do fundo da alma e começou a escalar a enfiada. Isso foi o suficiente para nos motivar a seguir em frente. Ele chegou bem na P8 e trouxe a Lívia logo em seguida. Fui o próximo. Cheguei na parada substituindo o Gustavo na segurança para que ele pudesse continuar tocando.

 

9° e 10° Enfiadas

Gustavo passou de um lance exposto e forte logo na saída e seguiu rapidamente pelo trecho acima, passou da parada natural da P9 e parou apenas em uma parada opcional, já perto do cume. Estamos bem próximos do objetivo.

Já passava de meia noite quando cheguei nessa parada. Era um platô bem amplo com bons espaços para deitar. Armei a segurança do Blanco, enquanto Gustavo seguia para os últimos metros da via. Ele subiu bem o lance de Vsup, o último lance mais difícil da parede. Passou da P10 e foi direto para os grampos que tinha no cume. Chegando, enfim, perto de 1h da manhã no objetivo final e gritando

A Lívia foi logo em seguida. Depois eu e Blanco. Chegamos perto de 2h da madrugada, totalizando 17h de escalada. Era um alívio ter chegado lá. Só consegui tirar o material e deitar na pedra por uns bons minutos.

 

Enfim cume

Nesta hora, não ligamos mais para ter que dormir no cume. Era bom demais estar lá em cima.

Buscamos algum lugar que tivesse abrigo do vento, que já estava bem gelado. Dormi numa pequena clareira da vegetação, suficiente para conseguir deitar em um pouco de terra onde haviam menos pedras para incomodar as costas. Fiquei de anoraque e uma camisa uv enrolada nos pés (já que tinha ido de chinelo e não conseguiria dormir com a sapatilha apertada). Coloquei uma corda espalhada pelo chão e dormi algumas horas sobre ela até amanhecer. Todos fizeram algo semelhante para dormir um pouco e encarar a descida, que não iria ser leve também.

Descida

Foto 19 – No cume do pico do Itabira 2.

Foto 20 – No cume do pico do Itabira 3.

Acordei perto de 6h com uma chuva caindo. Não era muito forte, mas chegou a molhar bem os equipamentos e a nós. Nos apressamos para descer. Gustavo entrou em contato com o conquistador de uma via ferrata, que terminava no outro lado no pico, para pegar informações para a nossa descida. A face dessa via não tinha fendas e era bem vertical, as vezes negativa. A vista era impressionante. Podíamos ver a base lá do cume, em uma linha reta para baixo. Mais de 300 metros de abismo.

A via não tinha grampos até perto da base. A descida era feita por degraus feitos de vergalhão fincados na pedra a cada 75cm. Começamos a descer usando duas solteiras nos prendendo aos degraus. Eram muitas centenas de degraus até a base. A mochila estava pesada e puxando o corpo para trás a cada descida de degrau. Ainda era preciso fazer o procedimento com atenção para não confundir as solteiras e acabar se enrolando. Depois de uns 30 min descendo não parecia que tinhamos chegado na metade dos degraus. Peguei uma corda dupla que usamos na escalada e começamos a descer em rapeis de 60 metros passando a corda em 5 degraus de uma vez pelo menos. Foram 3 rapeis desses até chegar finalmente até a base. Uma das sensações mais gratificantes que tive em uma escalada. Sensação de missão cumprida!

Recompensa!

Tudo que queríamos era chegar no estacionamento da casa e seguir para a nossa pousada. No entanto, tivemos uma recepção que não esperávamos. Primeiro fomos recebidos com garrafas de água gelada na base, trazida pelo conquistador da via ferrata, Ezequiel. Depois, chegando na casa dos proprietários do terreno (que na verdade era uma plantação de café e outras coisas), fomos recebidos com um café da manhã muito bom. Tinha café, pão, frutas, suco de graviola, e outras coisas mais.

Conversamos, contamos histórias e fizemos bons amigos.

Agradeço a todos que fizeram parte desta história. Espero encontrá-los mais vezes pelas montanhas!

 

Luis Avellar

CNM – Clube Niteroiense de Montanhismo.

laam88@gmail.com

@luisaugustoeq (Instagram)

Relato sobre a conquista da via Carlos Boechat, em Itacoatiara, Niterói – RJ

Por Michel Camacho Cipolatti

Com a perda do amigo, engenheiro, administrador regional da Região Oceânica de Niterói durante muitos anos, eleito vereador de Niterói em 2020, que nos deixou aos 70 anos no dia 12 de dezembro de 2020, vítima de covid-19, iniciei uma busca por uma parede a fim de conquistar uma via de escalada em sua homenagem, em alguma formação rochosa de Niterói. Foi lançado o desafio!

Normalmente, se encontra uma parede, se conquista uma via, e durante (ou depois) se decide o seu nome. Desta vez foi ao contrário. Eu já tinha o nome da via, mas não sabia onde seria.

A escolha da linha não foi fácil, pois, apesar do relevo acidentado, o município possui diversas vias e algumas paredes já não comportam novas conquistas. Além disso, a intenção era abrir uma via “diferenciada”. Tanto o local, quanto a vista, deveriam impressionar os escaladores que viessem a conhecer e repetir.

Foram paqueradas algumas possibilidades no Morro do Morcego, Santo Inácio, Cantagalo, Costão de Itacoatiara e Alto Mourão. Foram vários dias de procura e olhar atento às paredes, quando certo dia, meus olhos bateram na face sudeste do Morro das Andorinhas, aquela voltada para Itacoatiara. A rocha possui muita vegetação, e à primeira vista, não seria um local apropriado. Porém, ao chegar na base, depois do setor de blocos do Oriente, encontrei uma linha relativamente “limpa”, com pouca vegetação. Definido, então, o local e o traçado da via. Ao consultar o Parque Estadual da Serra da Tiririca, foi constatado que este setor não possui vias de escalada e encontra-se liberado para novas conquistas. Ufa!

Escolhido o dia 26 de janeiro de 2021 para iniciar a ascensão. Ao convidar alguns escaladores para fazer a minha segurança (e ninguém pôde ir comigo), decidi iniciar sozinho, em auto-segurança, o que dificulta mas continua sendo possível. Assim, o desafio se tornou ainda maior.

Avistei uma fenda negativa a cerca de 15 metros da base em que foi preciso usar uma estratégia inusitada para mim. Deixei a mochila com a furadeira pendurada pelo cliff na quarta chapeleta, subi a fenda em livre e só então puxei a mochila para cima. Foi o maior perrengue!

A parede demanda uma diversidade de técnicas de escalada, com lances atléticos, como a referida fenda, e lances mais técnicos, como os cristaizinhos e as aderências no meio da parede. Foram cinco investidas que demandaram muito esforço e dedicação. Vários momentos de risco e dificuldade (o risco era controlado, viu, mãe?) e muita adrenalina. Durante os momentos de cansaço, dor e desconforto, consegui manter o foco e a motivação, pois a vontade de vencer o desafio era maior (frase boa para o vídeo).

O resultado foi uma escalada muito bonita, com seu início bem próximo do mar, onde as ondas batem na base da montanha, o que traz ao mesmo tempo uma mistura de paz e apreensão. Difícil de explicar! Meu objetivo foi atingido (pelo menos eu fiquei impressionado). Na última investida, no dia 15 de abril de 2021, o mar estava agitado e o início da via molhado pelos respingos. Para completar a beleza do local, a vista para um “cartão postal da cidade”: a praia de Itacoatiara cercada pela Serra da Tiririca.

Fico muito satisfeito com o resultado, na torcida para que muitos escaladores a admirem com o devido cuidado com a vegetação, e faço a doação da via ao Clube Niteroiense de Montanhismo.

Fico, também, muito honrado em conseguir fazer esta homenagem. Este trabalho, além de eternizar em uma montanha da Região Oceânica o nome do “amigo incansável”, como disse o Prefeito da cidade em uma homenagem (e o Boechat era mesmo uma pessoa excepcional), certamente contribui para o desenvolvimento do montanhismo na cidade de Niterói.

 

Orientações aos escaladores:

Para acessar a base, seguir pelas pedras à direita da prainha de Itacoatiara, até encontrar a trilha que passa abaixo das casas de um condomínio e descer no setor de boulders do Oriente (caminho também frequentado por pescadores).

A via se inicia próximo ao último bloco deste setor, que fica “apoiado” na parede. Da base, é possível ver as quatro primeiras chapeletas e a fenda que permite vencer o trecho negativo.

A primeira parada dupla (P1) foi instalada na quinta proteção fixa, logo após a fenda, para evitar o atrito da corda na aresta da parede e o “peso” a ser puxado pelo guia, além de facilitar a subida do participante e a comunicação entre os dois. É possível esticar da base até o P2 com uma corda de 60m, no limite da corda.

Os esticões seguintes são predominantemente em agarras (cristais) e algumas passadas em aderência. A via segue tendendo levemente para a esquerda.

Após a última parada dupla (P5), é possível caminhar até a trilha do morro das Andorinhas, que dá acesso próximo à praia de Itaipu. A via pode ser rapelada com uma corda de 60m, porém, recomenda-se a descida por esta trilha, para evitar danos à vegetação da parede durante o rapel, evitar o rapel em aresta na chegada à base, e ainda, para desfrutar do mirante do Morro das Andorinhas, voltado para as lagoas de Itaipu e Piratininga na descida.

 

Para acessar o croqui da via clique aqui.

Relato da conquista da Via Bernardo Collares Arantes, no Monumento Natural Pedra de Inoã, Maricá – RJ

Por Michel Camacho Cipolatti

 

Há alguns anos eu carregava duas vontades que nunca havia colocado em prática: conquistar uma via e dar o nome em homenagem ao Bernardo, e; saber se alguém já tinha conquistado alguma via naquela aresta que me chamava atenção toda vez que eu passava pela estrada em Inoã.

E foi escalando a CEB 60 com a Hélida, sempre muito motivada para escalar, no dia 22 de fevereiro de 2020, que ao contar essa história eu escuto: “Bora chegar na base amanhã!”. E fomos no dia seguinte mesmo.

Depois de muita subida abrindo trilha e muitos espinhos, chegamos na base da aresta, e para nossa surpresa, não tinha nenhuma via! Começou então a conquista, sem nenhum projeto ou preparação. Começamos do zero. Compra de chapeletas… Juratan entrou para reforçar o time com a sua experiência… contato com a prefeitura, pois o local é uma Unidade de Conservação… equipamentos móveis e furadeira emprestados… parabolts do Miguel Monteza… e tudo pronto.

No sábado, dia 7 de março, conseguimos iniciar a escalada (desculpa pai, por não ter conseguido te dar um abraço no dia do seu aniversário). A idéia foi, desde o início, conquistar uma via limpa explorando ao máximo as proteções móveis, economizando nos furos e evitando a vegetação.

Mais uma vez, para a nossa surpresa, a parede se mostrou muito generosa, oferecendo boas agarras e muitas fendas. A via já começa com uma fenda, com boas proteções móveis. Lembro de ter chegado no primeiro platô, aos 10m de via, e o Juratan dizer: “Cabe uma chapeleta aí, hein!” Mas eu estava com um móvel perto do pé e “toquei para cima”. A primeira proteção fixa fica a 13m da base, e neste dia foram conquistados 30m de via, passando por um lance talvez de 5° grau, após a segunda chapeleta.

Uma semana depois voltamos para mais uma investida. Saindo do P1, encontramos uma sequência de pequenas fendas boas para colocação de móveis. Foram instaladas mais duas chapeletas até o P2. Mais uma vez, tocando para cima, mas desta vez com a Hélida fazendo a segue, que ficou orando kkk.

O traçado encontrado e indicado pela parede alterna entre sair da aresta para aproveitar as fendas existentes e voltar para a aresta para aproveitar o visual do diedro, com a vista para suas paredes negativas em toda sua extensão. E que visual! A cada investida a parede superava nossas expectativas.

Entraram para o time o Sérgio Magalhães, que foi em todas as demais investidas com sua raça, e o Bruno Moretto, que fez imagens incríveis com o drone. Na terceira investida foram conquistados mais 30m de via. Terceiro esticão todo em proteções móveis. Optamos por fazer esticões curtos, para não perdermos a comunicação entre guia e participante, e que coincidem com as duplas de rapel com uma corda de 60m.

Definido o P3 e… Perrengue!!! Ao tentar puxar a mochila com a furadeira, a mesma agarrou em um arbusto e não subia de jeito nenhum. Achei que fosse arrebentar a retinida de tanto puxar do platozinho do P3. Não soltava por nada! A solução foi descer a mochila de volta até o Magalhães, que soltou a retinida para eu poder recolher, e consegui jogar de volta em uma linha reta com a chave 14 de peso. Deu certo!

Passados mais cinco dias e estávamos nós de volta à parede para conquistar um dos lances mais bonitos da via: o lance da aresta! Logo após o P3, com ajuda do Magalhães que apontou um possível traçado passando pela aresta (enquanto eu estava buscando um caminho com muita vegetação) consegui vencer um trecho que alterna entre agarras e aresta, com a utilização de dois móveis. Porém, o lance ficou um pouco exposto demais e não é facil (eu não ia querer guiar aquele lance de novo rs) a ponto de colocamos uma chapeleta intermediária para reduzir o risco. Mais 30m de via e definido o P4.

A última investida antes de interrompermos por causa da pandemia foi a mais produtiva, com ascensão de 60m. O quinto esticão não apresenta grandes dificuldades e é protegido todo por móveis. Em seguida vem uma horizontal para a esquerda, que passa por cima do “grande negativo”. O final da horizontal também ganhou uma chapeleta na última investida para diminuir o grau de exposição. A chegada ao P6, talvez o crux da via, tem proteção fixa e boas colocações móveis.

Passados alguns meses sem voltarmos na via, decidimos terminar a conquista. O dia escolhido em que estávamos disponíveis eu e Sérgio Magalhães, e que não choveu, foi o dia 20 de dezembro de 2020. Marcamos 5 horas da manhã no início da trilha para não pegarmos muito sol, tendo em vista que a via fica voltada para o noroeste e pega sol à tarde. O objetivo era recolher as 3 cordas fixadas na parede, instalar as duas citadas chapeletas para reduzir o risco (pintadas de amarelo para diferenciar) e conquistar o trecho final, do P6 para cima, para acessar o mirante e descermos por trilha. Chama atenção a presença de blocos soltos a partir do P6. Sendo assim, quem optar pela descida por trilha deve escalar a chegada ao cume com bastante cautela, também em móvel.

A descida, conforme indicado no croqui, pode ser feita por rapel a partir do P6 com uma corda de 60m (todas as paradas são em chapeleta dupla) sendo o primeiro rapel em diagonal, ou por trilha a partir do mirante (cume). Não há proteção fixa no cume, para evitar que pessoas inexperientes montem rapel. A segurança do participante pode ser feita em arbustos ou palmeiras confiáveis.

Ao todo, a via tem cerca de 200m, foram instaladas 12 chapeletas durante a conquista (mais seis duplas), duas intermediárias para reduzir a exposição, e foram utilizadas 21 colocações de móveis.

Agradeço muito aos demais conquistadores, Magalhães, Juratan e Hélida, por me permitirem a realização deste trabalho, que acredito ser o maior feito da minha vida (depois dos meus filhos). Sem o apoio e a participação de vocês não seria possível. Não medimos esforços durante a conquista, pegamos sol, sentimos sede, muitas dores musculares, mas como disse o Juratan, a dedicação e o espírito de montanhista sempre prevaleceu. Conseguimos superar esse desafio. Ainda segundo o Jura, que conhece praticamente todas as vias da região, “é a mais bela conquista de Niterói e Maricá”. Eu não discordo. A parede é realmente impressionante pela sua formação e pelo visual.

Fico muito honrado em poder contribuir para o esporte, oferecendo mais uma opção de escalada com um requinte de adrenalina. Ainda, em conseguir homenagear meu amigo Bernardo, um grande escalador que deu sua vida para as montanhas, e que tanto contribuiu para o desenvolvimento do esporte, com suas conquistas, com a intensa participação na FEMERJ e nos Clubes, com a sua contagiante paixão pelas montanhas que certamente influenciou e ainda influencia muitos escaladores. Esta homenagem ainda é pouco para a grandeza do Bernardo e para o que ele representa para o montanhismo.

Fico com o sentimento de missão cumprida. Valeu cada momento de dificuldade e superação, cada esforço e dor sentida, cada minuto de desânimo, cada gota de suor deixada na montanha, pois “As Montanhas são uma espécie de Reino Mágico, onde por meio de algum encantamento, eu me sinto a pessoa mais feliz do mundo”. Bernardo Collares Arantes. Obrigado meu amigo!

Para acessar o croqui da via clique aqui

 

Nono (último) dia no Tour do Mont Blanc

Dia 9: Tour do Mont Blanc

No nosso último dia, voltamos para Les Houches, o ponto de partida do roteiro clássico do Tour.

Começamos a caminhar tarde, às 10h45, pois demoramos a ajeitar tudo e comprar comida. A partir do pequeno pórtico, levamos 1h45 para chegar no Col de Volza, a 1665 mts, mesmo errando o caminho na saída da cidade. Uma subida chata e íngreme em asfalto e estrada de chão.

Por conta do horário, desistimos de passar pelo Col du Tricot e começamos a descida para Les Contamines.

Ficamos um pouco triste pelo Igor porque a maior parte do caminho foi por estradinhas e vilarejos. Passamos por alguns poucos trechos de trilha. Definitivamente passar pelo Col du Tricot deve ser muito mais interessante.

Quase chegando a Les Contamines, o calor e as voltas pelos vilarejos estavam me irritando. A ponto de pensar em parar na estrada e pegar o ônibus para Saint Gervais e voltar para Chamonix. Mais uma vez a determinação do Lucas me salvou. A 20min de Les Contamines paramos para tomar banho de cachoeira, o que também salvou o dia.
Chegamos em Les Contamines, às 16h30 e concluímos nosso Tour do Mont Blanc.

Foi uma experiência sensacional, pelas paisagens e pelas pessoas com quem interagimos.

Economizamos um dia em cada trecho longo que fizemos: de pouco acima de Courmayer até La Foully e de Trelechamp, acima de Argentiere, até Les Houches. Cada um destes trechos são desdobrados em dois dias no roteiro clássico do Tour de 11 dias. E foram os dias mais bonitos, opostos geograficamente em relação ao maciço do Mont Blanc e com visões espetaculares das cadeias de montanhas de cada lado, italiano e francês. Passamos por variantes altas nos dois trechos, pouco ou não utilizadas no Tour, e realmente só encontramos montanhistas locais ou poucos “turistas” como nós, sendo nosso quarto e oitavo dias, respectivamente.

Em nosso roteiro, depois do primeiro dia, alternamos entre um dia pesado e um dia mais leve, o que mostrou que é bem razoável fazer o Tour em 9 dias, ficando em abrigos. O roteiro foi definido em parte pela escolhas dos abrigos. Gostei muito de ter começado em Les Contamines, mas não de ter feito o trecho de Les Houches  a Les Contamines por último. A divisão dos trechos poderia ter ficado mais equilibrada, parando o segundo dia no Lac Combal, terminando o quarto dia no Rifugio Elena, em vez de ir direto a La Foully, e estendendo o sétimo dia até La Flegere, em vez de parar em Trelechamp.

O Lucas me surpreendeu pela força nas subidas e determinação, além do seu usual encantamento por tudo e prazer por interagir com as pessoas. Ele me lembrava que tínhamos que parar para comer e confiou nos planos mais ousados, mesmo quando outros praticamente nos chamaram de loucos. “Parceiraço”!!! E foi também muito legal ter o Igor no dia final.

Lembranças para sempre! Excelente experiência!

Agradeço ao André Luiz Rocha , fisioterapeuta, no tratamento das dores musculares, desde janeiro e à karine Rocha @corpoterapia.karine, da ATP, pelas orientações na preparação física, e especialmente aos amigos do CNM, #clubeniteroiensedemontanhismo , do CET, e do CEG que participaram comigo das atividades preparatórias, caminhadas e mesmo “roubadas” e escaladas.

Agradeço também à Thaís Cavicchioli Dias, cujos relatos feitos no Blogdescalada ajudaram bastante no nosso planejamento.

 

Oitavo dia no Tour do Mont Blanc

Dia 8: Tour du Mont Blanc

Outro dia de longa caminhada na nossa programação.
Iniciamos no refúgio Maison La Boerne, em Trelechamps, a 1385 mts, às 8h50, atrasados em relação ao plano inicial, com destino a Les Houches, indo ao Lac Blanc. Um dia pesado e eu ainda o tornei mais difícil ao optar por fazer uma variante por cima não prevista no roteiro do Tour.

Levamos 2h15 para chegar ao Lac Blanc, que está a 2353 mts, passando pelas famosas escadas e cabos de ferro. O Lac Blanc (Branco ) estava ou é verde. Após tirarmos muitas fotos, paramos para comer, ficando lá uma hora.

Foi neste ponto, que resolvemos, por minha insistência, mudar o plano original que era seguir o trajeto usual doTour do Mont. Em vez descermos até o Refúgio de La Flegere, a 1877 mts, para depois subir para Plan Praz e para o Col du Brevent, tomamos uma variante não prevista no roteiro do Tour.

Seguimos por cima, descendo e subindo, passando pelo Index , a 2385 mts, descendo e subindo ao Col de la Gliere, a 2461 mts, com trechos de cabos de ferro e passagens delicadas em neve e gelo no final. Lá vimos os pequenos, mas belos Lacs Noirs.

No caminho, encontramos alguns Ibex (bouquetins), os cabritos dos alpes, caminhando na trilha. Paramos para esperar que se decidissem para onde iriam, torcendo para que não viessem em nossa direção. No Col, vimos uma fêmea com um filhote. Em ambos os casos, sessões de fotos, pois só havíamos visto este animais no Bonhomme, no primeiro dia.

No início do dia, estava levemente nublado mas o sol foi ganhado espaço e tivemos belas visões do Mont Blanc.
Neste dia, caminhamos sempre com a visão de Chamonix, no vale abaixo, e das montanhas nevadas.

Nesta variante, vimos também as montanhas por trás desta cadeia da reserva natural das Aiguillles Rouges, que não se vê de Chamonix.

Do Col de la Gliere, passamos para o Col du Cornu, a 2406 mts, atravessando outra parte com neve acima do Lac Noirs, em um trecho fácil e muito cênico. Entretanto, estávamos demorando mais do que esperávamos e eu já meu perguntei sobre quem foi “infeliz” que teve a ideia de fazer aquela variante.

O Lucas me consolou dizendo que estava muito bonito. Dali descemos, por curvas de nível, até o Plan Praz, a 2075 mts, na base subida para o Col du Brevent. A variante nos levou onde precisávamos chegar, mas gastamos 4h desde o Lac Blanc, enquanto outro grupo gastou 3 horas descendo por La Flegere e subindo até ali.

E ainda gastamos tanta energia que tivemos que parar para comer em um bar panorâmico, o que nos tomou em torno de 1h10. Já passava de 17h30, quando começamos a subida para o Brevent e com muita disposição e fazendo força mesmo, chegamos ao último cume do dia, a 2525 mts, em 1h. Mesmo preocupados com o horário, paramos para tirar fotos. A visão do Mont Blanc e das demais montanhas daquele ponto é magnífica.

Às 18h53, iniciamos a longa e temida descida até Les Houches, a 1007 mts, ou seja, mais de 1500 mts declive.
Passamos, às 19h40, no Refúgio Bellachat, a 2152, onde esperávamos conseguir água, pois o restaurante no Brevent estava fechado, mas não tivemos sucesso. Descemos com menos de 1 litro de água. Não arrisquei pegar água na descida, pois havia muitas ovelhas.

Chegamos na estação de trem de Les Houches às 21h55, já escuro. Exaustos, depois da descida interminável, parecida com a descida da Pedra do Sino, no final da Travessia Petrópolis Teresópolis, ou dos Três Estados na Travessia da Serra fina.

Percorremos entre 24,5 km e 26km em 13h05, com paradas. No último quilômetro, Lucas, que havia me cedido os dois tensores que levamos, sentiu dores em um dos joelhos e reduzimos o ritmo.

Esperamos ainda até às 22h20 para pegar uma condução para o hostel em Chamonix, onde meu filho mais novo nos aguardava com a janta pronta. Ele chegou naquele domingo para fazer o último trecho do nosso Tour.