Botas de Caminhadas e suas garantias

Botas de Caminhadas e suas garantias

Publicado no Boletim CNM 2015-3

Já tive diversas botas, o que me garante a experiência de diversos defeitos de botas e, com isso, os contatos com o sistema de garantias de diversas delas.

Por que compramos botas e tênis de caminhadas caros? Beleza? Resistência? Conforto? Consumismo? Segurança? Garantia? Todas as alternativas anteriores?

Bom, falando por mim, gosto de equipamentos resistentes e confortáveis, que se desgastem naturalmente, mas, em caso de defeito (e não dano, que fique clara a diferença), que a empresa seja responsável pelo seu produto (leia-se, garantia).

No último ano ao que parece (talvez devido a crise, cambio do dólar, ou má vontade mesmo) reparei que o sistema de garantias apresentou mudanças … e com isso eu fui tomado de surpresa, e imagino eu algumas outras pessoas também.

Sempre fui informado, no passado, que defeitos de fábrica tinham garantia de um ano, que surpresa eu tive, atualmente, quando descobri que a Snake e Vento mudaram esse sistema!

A Snake segue a seguinte linha atualmente: se compras na loja, o lojista pode mandar para a fábrica (segundo ultimo informe) em até seis meses. Porém uma amiga recentemente quis adquirir uma usada, e mandou um e-mail para a fábrica, a resposta foi: “garantia por 3 meses contra defeitos e, neste período, o comprador deve se cadastrar no programa de garantia estendida e, com isso, a garantia passa a ser de 15 meses”. Logo, se você se distrai quanto a esse cadastro, lá se vão os 15 meses …

Em conversa com um vendedor de uma loja, via telefone, obtive as seguintes informações:

  • Snake, 6 meses para defeito de fabricação e, dependendo do dano, mandar pela loja (a garantia varia de modelo para modelo segundo ele);
  • Bull Terrier, 6 meses e contactar o sac (nunca me responderam, quando minha bota apresentou defeito);
  • Vento, garantia de seis meses (desde 23/07/2015);
  • Columbia, 6 meses, envio pela loja.

Não temos mais a garantia de um ano, e segundo o lojista, se compramos a bota usada, mesmo nova, temos que ter a nota fiscal para caso de defeito. Caso contrario, teríamos que nos esforçar para a fabricar fazer o reparo.

Logo, para adquirirmos um equipamento temos que ser, com toda a propriedade da palavra, chatos!

Quando estiverem na loja, não se omitam de perguntar ao vendedor sobre o produto que esta adquirindo e, se o mesmo não souber responder, fale com outro.

Perguntem do sistema de garantias sempre;

Se houve alguma troca deste modelo ou reclamações dos clientes (a bota Vento que adquiri, soube depois que foi recolhida do mercado pois estava apresentando falhas na vulcanização);

Guarde as notas fiscais;

Fotografe o defeito e envie as fotos do defeito imediatamente para o fabricante (sempre fale no e-mail que faz parte de um clube de montanhismo, acredite, isso faz diferença);

Duvidas quanto ao modelo a ser adquirido, pergunte em sua lista, afinal, os grupos de montanhismos não servem só para trocar experiência sobre montanhas, mas sobre equipamentos também;

Sejamos chatos sim quando adquirir um equipamento, tendo em vista que este equipamento nos acompanhará por um bom tempo, e então deve ser bom, e nos proporcionar conforto e segurança.

Informação sempre, e partilhar a informação também!

Noche Estrellada, de Izabel Suppé

Noche Estrellada, de Izabel Suppé

Noche Estrellada, de Izabel Suppé.

Por Leandro Collares

livro_026Isabel Suppé (http://www.isabelsuppe.com/) relata com delicada beleza como sobrevive a queda de 400 metros na Ala Esquerda do Condoriri. Gravemente ferida e plenamente consciente de sua situação na solidão gelada dos Andes bolivianos, o equivalente a uma sentença de morte. Perseguida pela hipotermia, hemorragia intensa, alucinações e desespero, decide assumir o compromisso com a vida. Passando dois dias e duas noites intermináveis rastejando sobre o gelo para obter ajuda para ela e seu companheiro Peter. Em 2011 seu livro foi finalista escolhido pela revista Desnivel.

 

“Sugestão de Leitura” publicada no Boletim CNM 2015-3.

Livre – A Jornada de Uma Mulher Em Busca do Recomeço, de Cheryl Strayed

Livre – A Jornada de Uma Mulher Em Busca do Recomeço, de Cheryl Strayed

Livre – A Jornada de Uma Mulher Em Busca do Recomeço, de Cheryl Strayed.

Por Eny Hertz

livro_025O que faz uma pessoa inexperiente trilhar sozinha 1.770 quilômetros da Pacific Crest Trail (PCT), umas das mais difíceis trilhas do planeta. Quase como um diário, este emocionante relato entrelaça passado e presente, com vários momentos que nos fazem querer se embrenhar na natureza.

 

“Sugestão de Leitura” publicada no Boletim CNM 2015-3.

Dissecando a Costura

Dissecando a Costura

Noutro dia, escalando com uns amigos, percebi que o guia utilizava as costuras montadas com as portas dos mosquetões opostos, resolvi pesquisar.

Comecemos pelo básico

Geralmente no Rio de Janeiro, uma via ao ser conquistada recebe proteções fixas (grampos ou chapeletas) ao longo da linha. Ao ser repetida a via, o guia coloca as costuras nestes grampos, ou seja elas são usadas para proteger o guia de uma queda rocha abaixo.

A costura é o conjunto composto de um fita fechada em anel e dois mosquetões sem trava.

O mosquetão com o gatilho reto é colocado na proteção, a fita deste lado deverá estar frouxa para não forçar movimentos neste mosquetão, evitando assim o “self-unclipping” do grampo, que é quando o mosquetão sai do grampo inadvertidamente. Pode ocorrer quando se clipa a corda de maneira errada, “de fora para dentro”, forçando a costura a se movimentar para cima. Ou quando se muda de direção acima da proteção.

O mosquetão com gatilho curvo, pode ter a fita mais justa, facilitando assim a colocação da corda, especialmente quando usamos uma fita expressa. Pode ter uma borrachinha, entretanto sua utilização em fitas de elos é muito perigosa, pois há o perigo, num momento crítico, da costura ser montada erradamente e de nada servir esta costura.

 

O “self-unclipping” da corda é quando a corda sai sozinha de dentro do mosquetão com uma queda do guia. Pode ocorrer quando o mosquetão está no mesmo lado da quedado guia. Ocorre mais nas vias esportivas e em tetos.

Caso não haja diferença de formato entre os mosquetões, escolha um para ficar somente na proteção. Isto é muito importante porque o mosquetão que fica na proteção sofre um desgaste forte, criando sulcos com quinas vivas, e se houver troca para uso com a corda, este mosquetão poderá cortar a mesma em caso de queda do guia.

O gatilho do mosquetão pode ser inteiriço ou de arame. A desvantagem do primeiro é que quando um guia cai, este mosquetão poderá abrir inadvertidamente e a corda sair dele. A vantagem do de arame, é a dissipação da energia de uma queda, não abrindo a porta. Além de não emperrar a porta quando estamos escalando na neve.

Qual comprimento escolher para as costuras?

Esta escolha depende da modalidade de escalada. Geralmente esportivas são linhas relativamente retas, onde podemos utilizar costuras expressas curtas (de 15 a 25 cm). Já em vias tradicionais, em grandes paredes, normalmente as vias são tortuosas, necessitando de costuras médias e longas para que a corda não forme um zigzag, deixando-a muito “pesada”.

Para a escolha do comprimento da costura, também devemos levar em consideração se o mosquetão da corda em caso de queda, não baterá numa quina da rocha, podendo abrir o mosquetão.

Como orientar uma costura?

Há entre os escaladores do Rio duas escolas para qual lado a porta do mosquetão da costura deverá ficar: direção da escalada ao sair da proteção ou de onde está a próxima proteção. Geralmente a proteção está ou num local que foi fácil para o conquitador instalá-la ou num local que realmente evitará o guia se machucar em caso de queda.

Alguns preferem proteger esta saída perigosa, colocando a porta do mosquetão para o outro lado.

Outros acreditam que cair na saída da proteção produzirá um loop de corda pequeno e com isto a possibilidade do unclipping é reduzido, mas cair perto da proteção seguinte, com muita corda para criar um grande loop, o unclipping é possível. Eles colocam a porta do mosquetão para o lado oposto da próxima proteção.

Como orientar? Você responde!

Como montar a costura?

Finalmente voltei à primeira questão: Colocar a porta de ambos mosquetões do mesmo lado ou em lados opostos?

Escrevo o que li na página da Undercling:

“Oito fabricantes recomendam o mesmo lado (incluindo Black Diamond, Petzl); três fabricantes recomendam lados opostos (incluindo Edelrid, Omega Pacifc) e três fabricantes (incluindo DMM, Mad Rock) recomendam ambas orientações…
O que vemos atualmente é a tendência das portas dos mosquetões ficarem do mesmo lado.”
Alguns alegam que num momento crítico os dois do mesmo lado facilitará a coloção do sistema. Mas creio que neste momento, sua memória muscular que entrará em ação.

Creio que é importante analisar se há ou não mudança de direção da linha, por exemplo, o guia saindo pela direita e mais acima vai para a esquerda pois a proteção está neste lado:

Com a porta do mosquetão da proteção colocado em relação ao lado da próxima proteção pode ser pressionado de tal forma que abrirá, ocorrendo o “self-unclipping”.

Com a porta do mosquetão colocado em relação à saída imediata pode ser pressionado na sua longitudinal, mas sem quebrar. Ou seja, não haverá “self-unclipping”.

Então, como montar? Você responde!

E que tal virar o mosquetão da corda? Deixando sua abertura para cima? Eliminaria a possibilidade do unclipping da corda, mesmo no lado da porta.

Fontes:

http://www.marski.org/artigos/121-artigos-tecnicos/488-uso-das-costuras-expressas-na-escalada-protecao-fixa-e-movel

https://www.petzl.com/GB/en/Sport#.VtibT-YjrIU

http://theundercling.com/carabiner-orientation-quickdraws-ways-carabiners-face/

http://www.rockandice.com/lates-news/how-to-properly-orient-a-carabiner-gate

https://www.youtube.com/watch?v=PPCAa6Xj0lo

Montanhismo e Seleção Natural

Montanhismo e Seleção Natural

Por Rosângela Gelly – Revisão: Dalton Chiarelli e Lilian Gelly

Publicado no Boletim CNM 2015-2

Pense em quando você nasceu … o quanto precisava aprender do mundo, da vida e das pessoas para poder chegar aqui onde está: vivo e com saúde. Talvez você não se dê conta do quanto precisa saber dessas coisas para conseguir chegar inteiro a cada final de dia.

Todos os seus ancestrais foram muito hábeis em vencer os desafios do mundo a cada dia. Você é o resultado disso. E quando você nasceu começou a ganhar sua própria experiência.

Se tropeçar na calçada, você saberá o que fazer para não cair de ”cara no chão”, pois passou por um processo longo e duro para aprender isso, certo?

E agora vamos trazer isso para o mundo do Montanhismo.

Todo o aprendizado adquirido, desde o nosso nascimento, vai conosco para esse ambiente novo. As defesas que usamos no nosso dia a dia parecem ser suficientes para lidar com tudo o que pode acontecer. Mas não são, já que a Montanha exige técnicas e habilidades específicas.

Cada dia é um dia. Cada tropeço ensina, mas não é definitivo. O aprendizado aumenta o conhecimento, mas não impede tropeços futuros.  Se um acidente foi evitado, parabéns! A garantia é apenas do que passou, não há garantia do futuro.

O homem tem uma diferença, e uma grande vantagem sobre os outros animais: é capaz de passar suas experiências para os outros de sua espécie. Isso o torna capaz de, sem mesmo vivenciar alguma situação, saber que ela existe, pensar em uma solução, simular a sua ocorrência e se preparar para ela. Incrível não?!

Resumindo: como você pode estar preparado para um evento que potencialmente ameace sua vida em uma montanha? Pense ….

O que fazer no momento em que você escorrega rumo a um precipício em uma caminhada? Se a corda se solta do mosquetão? Ou se um  “friend” se solta de uma fenda?  Naquele segundo em que você pensa: “Uhm, ferrou!”. E lá está a Mãe Gravidade, democrática, esperando você de braços abertos.

Mas lembra que dissemos  que é possível desenvolver respostas a eventualidades a partir da experiência de outros?

Se você entra em um banheiro e vê uma placa escrita “Piso Molhado”, o que você faz? Talvez pense que não faz nada. Mas isso não é verdade. Todo uma mecanismo de defesa é acionado para você se “defender” de uma eventual queda.

Da mesma forma, é preciso que esteja nato, em seu mecanismo de defesa, as técnicas e habilidades necessárias para responder a uma situação de risco na montanha embora em nenhum lugar vai ter uma placa dizendo “Pedra Molhada”. Você precisa estar “ligado” o tempo todo.

Esteja treinado e apto a responder adequadamente. Ler apenas não basta. Treinar, treinar, treinar. Tudo isso requer condicionamento. Da confecção de nós, fazer corretamente seus procedimentos, e garantir o de outros, até participar de um resgate. Quanto mais se aprende, mais é possível entender que há muito a aprender.

Estar na Montanha faz parte do processo de seleção natural.

Algumas Características das Plantas sobre as Rochas

Publicado no Boletim CNM 2015-2

Por Katia Torres Ribeiro (adaptado por Stephanie Maia)

As plantas encontradas nos paredões podem ser rupícolas, quando crescem diretamente sobre a rocha, ou saxícolas, quando se localizam em pequenos platôs ou fendas com solo. Nessas situações, a água que chega escoa rapidamente e os nutrientes são escassos. Por isso, as plantas crescem bem devagar, e muitas têm adaptações especiais para lidar com a escassez de água, como é o caso dos cactos e bromélias formadoras de tanques, que armazenam água, ou das orquídeas e bromélias do gênero Tillandsia, que conseguem captar rapidamente a umidade das nuvens, ou ainda as velózias (canelas-de-ema) e capins-ressurreição, que toleram a dessecação violenta das folhas com posterior re-hidratação das mesmas folhas.

Não é fácil se fixar na rocha. Imaginem quantas sementes se perdem por secura ou enxurrada para que uma se fixe e, finalmente, cresça. Basta observar uma via inacabada na face S do Pão de Açúcar, o Paredão Universal, para constatá-lo: ela começou a ser conquistada na década de 60, mas depois foi abandonada e até hoje não apresenta sinal claro de recuperação da vegetação luxuriante que cobre esta face úmida da montanha.

É muito difícil para uma semente conseguir viajar de uma montanha para outra e, além disso, chegar a germinar. Talvez por isso haja tantas plantas que são específicas de uma ou de poucas montanhas adjacentes. Plantas em diferentes montanhas, quando não trocam sementes ou pólens, vão se tornando cada vez mais diferentes até que formam espécies distintas, e assim surgem os muitos casos de endemismo restrito (espécies só encontradas em uma única montanha).

Depois que algumas espécies mais tolerantes se fixam, começa a haver a interceptação de partículas de rocha, de húmus e detritos de plantas, e assim surge um protossolo, em que vão crescer outras plantas, como algumas gesneriáceas, bromélias e aráceas. Em geral, há primeiro a entrada de liquens e musgos, que crescem extremamente devagar (alguns liquens crescem apenas 1mm por ano!). Essas plantinhas minúsculas vão decompondo a rocha química e fisicamente, e vão juntando um pouco de solo embaixo de si, e assim também ajudam as sementes das outras espécies a se fixar. Estas então germinam e começam a crescer de forma bastante lenta também. Algumas delas crescem prostradas na rocha, e formam algo parecido com um tapete, que ajudam ainda mais a fixar partículas de solo, e mais e mais espécies conseguem se estabelecer ali. No entanto, muitas vezes esses extensos tapetes estão precariamente presos na rocha, quase que apenas aderidos, e sua retirada, bastante fácil, interrompe um processo de décadas ou mesmo de séculos de duração.

Em resumo, podemos dizer que essas espécies crescem devagar, têm dificuldade de estabelecimento (germinação + fixação) e, portanto, “investem” na longevidade. Estas plantas são, no mais das vezes, muito velhas! Ruy Alves, pesquisador do Museu Nacional do Rio de Janeiro, estimou a idade das canelas-de-ema (Vellozia candida) do Pão de Açúcar, no caminho do Costão e Paredão São Bento, em cerca de 150 anos, e em cerca de 500 anos as canelas-de-ema gigantes da Serra do Cipó.

Por que as montanhas têm plantas diferentes umas das outras?

Muitos fatores determinam quais plantas podem ser encontradas em uma certa montanha. Além do acaso e das chances das sementes terem chegado lá, as plantas são afetadas pelo regime de luz, pela rugosidade da rocha (tamanho dos cristais da rocha e forma de fragmentação), presença de fendas e outras concavidades, composição química da rocha e outros detalhes do relevo, além da presença de dispersores e polinizadores.

Também é bastante evidente o papel da insolação, da declividade e da umidade. A declividade, por exemplo, define bastante quais espécies podem ser encontradas, pois algumas delas só conseguem crescer em paredes verticais, enquanto outras dependem de um pouco de terra, e são mais comuns nas paredes menos inclinadas.Dessa forma, a vegetação sobre rocha do sudeste do Brasil e rica em endemismos, cada montanha ou conjunto de montanhas tem suas espécies particulares.

A fragilidade da vegetação
Essa vegetação sobreviveu relativamente bem até hoje, mas na verdade é extremamente frágil. A fragilidade tem dois componentes importantes: a facilidade para remover a vegetação (resistência) e o tempo que ela leva para se recuperar (resiliência). Para retirar a vegetação sobre rocha não são necessárias nem grandes ferramentas, nem tratores, nem fogo, como em uma floresta. Basta a habilidade de subir (ou descer…) na rocha e a força de algumas pessoas, ou mesmo a passagem freqüente de cordas para causar um grande estrago. Já o tempo para a vegetação se reconstituir por meios naturais ainda não foi estimado, mas é certamente muito longo. Em locais com muitas fendas a vegetação pode voltar ao que era antes em menos de 100 anos, mas em superfícies lisas os processos são mais lentos. A recuperação destas áreas é impressionantemente difícil e lenta, e no caso de se querer apressá-la, muito cara. O que é destruído agora tem de ser considerado como perda total, a não ser que sejam implementados programas intensivos de recuperação.

A velocidade com que novas vias vêm sendo estabelecidas ameaça a estabilidade da vegetação e mesmo a existência de muitas espécies, e é preciso lutar por normas de conduta que minimizem o impacto em vias novas ou já criadas, ao mesmo tempo em que se tenta determinar um patamar máximo de retirada de vegetação das paredes.

É mais fácil destruir e não se importar com plantas que parecem um simples mato. E o que é o mato? Pra maior parte das pessoas, é aquilo que vive em qualquer lugar, que cresce em abundância, que “dá como mato”. Decididamente este não é o caso das plantas sobre rocha, muitas delas assim tão pequenas e na verdade mais velhas que nossas bisavós, e que conhecemos tão pouco. É responsabilidade de todos nós poupar e ensinar os outros a proteger essa vegetação da nossa sempre crescente velocidade.

 

Fonte original: http://www.femerj.org/sobre-a-femerj/diretoria/departamento-de-meio-ambiente/150

Acesso em 20/05/2013

Nariz do Frade e sua Verruga – Parque Nacional da Serra dos Órgãos

Nariz do Frade e sua Verruga – Parque Nacional da Serra dos Órgãos

Publicado no Boletim CNM 2015-2

Data: 16/05/2015relato-foto-3

Participantes: Leandro do Carmo, Alfredo Castinheiras, Michael Patrick, Vinícius Araújo, Daniel Talyuli, Roberto Andrade, Tauan Nunes e Marcos Lima.

Local: Parque Nacional da Serra dos Órgãos

A trilha: Pegar a trilha da Pedra do Sino. O início fica metros antes de começar uns canos de ferro, que levavam água ao antigo Abrigo 2. A entrada da trilha é bem discreta e andando alguns metros, você verá um pequeno descampado, depois seguirá descendo e subindo. Cruzará dois pequenos riachos. Mais a frente, entrará numa parte bem íngreme até caminhará numa crista até começar a subir forte novamente. Após essa subida, virá o Paredão Roi Roi, será preciso estar encordado ou  fixar uma corda para segurança. Mais uma subida forte e estará na base do Nariz do Frade

Dicas da escalada: A chaminé é longa e mau protegida, principalmente nos 3 primeiros grampos. Eu escalei mais para fora, na parte mais aberta, um pouco fora da linha dos grampos, e me aproximava para costurá-los. Optei por não costurar o segundo grampo, pois ele fica numa parte bem estreita, fui direto do primeiro para o terceiro. Há uma parada dupla, bem confortável num platô. A partir desse platô, escalar em livre numa sequência de 4 grampos até uma pequena entrada (entrar na de baixo, a menor). Nesse dia estava bem úmida. Faz uma chaminé horizontal, bem apertada, onde segue agachado até o final, dali já dará para ver a luz lá no alto. Não tem grampo nesse trecho, mas tem excelentes buracos para por os pés. Saindo do buraco, tem mais dois grampos no final e já estará no cume do Nariz do Frade, uma base bem ampla. Faltará subir a Verruga. Lá tem dois grampos para artificializar a saída e será necessário fazer um lance em livre, um 3º, até chegar a um grampo antigo e grande. Mais acima há um grampo de cume. Para o rapel, existe um grampo, logo após a pedra onde fica o livro de cume, que dá para chegar ao platô num rapel que começa positivo e termina aéreo. Existe uma parada dupla mais em baixo,  mas considerei arriscado montar o rapel ali, muito exposto. Do platô, com duas cordas, desse direto, com uma corda, deverá fazer mais um uma parada dupla no meio da parede.

Relato

Era o dia da Abertura da Temporada de Montanhismo do PARNASO. Nós do Clube Niteroiense de Montanhismo, havíamos programados de fazer vários cumes nesse dia, entre eles: Papudo, Sino, São Pedro, Neblina e a Verruga do Frade. Ao total, fomos 30. Isso mesmo, 30! Resolvemos alugar duas vans, assim poderíamos curtir mais o evento, mesmo depois de um dia cansativo… Mas vamos ao que interessa, vamos ver como foi subir essa tal Verruga…

A ideia inicial era escalar a Verruga do Frade e depois continuar na Travessia da Neblina, afinal de contas, estaríamos na base do Nariz do Frade e, teoricamente, era só escalar a grande chaminé e depois a Verruga… Mas entre a teoria e a prática… Há uma grande diferença, ou melhor, uma grande chaminé!

Chegamos na Barragem e iniciamos a trilha às 08:30h. Seguimos pelos incansáveis zigs zags da trilha do Sino e fizemos nossa primeira parada, coisa bem rápida, na Cachoeira do Véu da Noiva. Descansamos e seguimos caminho. Acho que de tanto fazer esse caminho, ele ficou até mais curto e logo estávamos no local do antigo Abrigo 2. O começo da trilha é a esquerda, numa discreta saída, alguns metros antes de começar os canos de ferro que levavam água para o antigo abrigo.

Ali, tomei a dianteira e segui descendo. Não havia feito a trilha, nem a escalada, mas sabia que era por ali. O caminho até que era óbvio, um pouco fechado em alguns trechos, muito fechado por causa dos bambus caídos em outros, mas seguimos. Cruzamos dois riachos e entre as curvas da trilha, pisei e afundei, só não rolei barranco abaixo, porque consegui me segurar.  Continuamos e bem mais a frente, quando pega uma parte mais plana, tem uma pegadinha que muitos desavisados chegam a ir reto, até parar no meio do nada. Foram colocados alguns galhos e existe um totem. Nesse ponto deve-se começar a subir. Não é tão óbvio, mas com um pouquinho de atenção dá para perceber que é por ali.

Começamos a parte mais chata da subida, num local muito instável e íngreme. Aos poucos, fomos vencendo a subida e chegamos  a uma bifurcação, onde dobramos a direita e seguimos a parte mais bonita do caminho. Caminhamos pela crista até que começamos a subir forte novamente. Mais a frente, chegamos ao Roi Roi. Uma sequência de alguns grampos que fui subindo sem segurança e fixei uma corda para agilizar a subida. Depois de fixada a corda, continuei a trilha até um mirante onde era possível ver o Nariz do Frade e toda a sua beleza.

Já há alguns minutos ali contemplando a beleza, o Marcos Lima chegou e aproveitamos para fazer algumas fotos. A cidade de Teresópolis,  ao fundo, tentava de qualquer maneira aparecer nas fotos, mas o ballet das nuvens, ao mesmo tempo que cobria a nossa visão, dava um espetáculo a parte… Segui até a base da chaminé, afinal de contas, não via a hora de chegar lá em cima. Até que caminhamos bem… Levamos cerca de 2 horas para percorrer o caminho. Quando cheguei de frente a chaminé, pensei: “Tô f…”. Sabia que era grande, já havia visto fotos, mas ao vivo… Era beeeeeem diferente.  Já tinha uma cordada na via e o último estava começando a subir. Achei que seria rápido, mas no rítimo que ele estava indo, iria demorar um pouco. Todos chegaram e aproveitamos para fazer um lanche. Enquanto lanchava, fui dar uma olhada pelo local. De cara já deu para ver que o primeiro grampo era bem, mas bem alto mesmo.

Já tinha a dica de que a melhor forma de subir não era seguir o grampo e sim, escalar pela parte mais larga da chaminé e se aproximar do grampo somente para costurá-lo. O caminho da conquista foi outro, bem lá no fundo. No relato dos conquistadores, que está no arquivo do CEB, consta que quando chegaram a base do “Nariz” perceberam que o melhor caminho seria uma chaminé de aproximadamente 50m. Úmida e com bastante limo, utilizaram a técnica vigente na época. Construíram uma grande escada, improvisada com varas de 5 a 6 metros de comprimento. Vencido este obstáculo ainda tiveram que atingir o topo da verruga do nariz do Frade. Mais 11 metros de escalada e atingiram o topo. Esta conquista precisou de um grande trabalho de equipe que se iniciou no dia 04 de junho de 1933, com a abertura da trilha até a base por Malvino Américo de oliveira, Andral Povoa e Luiz Gonçalves. Na semana seguinte juntaram-se ao time Alcides Rosa de Carvalho, Arlindo Motta e Antônio F. de Godoy. Para a construção da escada e investida final reforçaram o grupo os Montanhistas José Claussem e Miguel Ignácio Jorge. Mais tarde foi instalada uma grande escalada, feita com cabos de aço, que acabou se perdendo no tempo e hoje não está mais no local. A foto ao lado, gentilmente cedida pelo Sobral Pinto, mostra como era essa escada.

Depois de 1 hora esperando, iniciei a escalada. Comecei a subir bem pela parte de fora da chaminé. Fui subindo, tentando manter um ritmo constante. Parei para dar uma descansada e olhei para cima, o grampo ainda continuava longe, olhei para baixo e também já estava longe… Com o apoio da galera continuei subindo. Mais alguns longos metros e costurei o primeiro grampo e pude descansar um pouco, cerca de 1 minuto e já parti para o próximo. O segundo grampo fica muito para dentro da chaminé.  Talvez a parte mais apertada… e olha que sou pequeno e magro… Resolvi ir direto para o terceiro. A chaminé tem ora que fica tranquila, mas em alguns lances fica apertada, mas de uma maneira geral é boa. Só é bem longa e pouco protegida.

Chegando ao terceiro grampo, passei a costura e dei mais uma pausa. Os grampos seguintes estavam um pouco mais próximos e a linha ia seguindo para a direita. Continuei subindo e em alguns momentos colocava o joelho na parede para ajudar a descansar… Mais acima, costurei o quarto grampo, depois o quinto e finalmente o sexto. Esse último, fica do lado oposto, já no final da chaminé, na base do platô. Como ele estava atras de mim,  estiquei o braço para costurar e passar a corda, só depois que fiz o movimento e girar e passar para o platô.

No platô a cordada da frente ainda estava lá. O Guia já havia ido e faltavam os dois participantes. Montei a parada e fixei a corda, para que o pessoal viesse subindo. Enfim pude descansar um pouco… O primeiro a chegar foi o Alfredo, que trouxe mais uma corda, na qual fixei também.. Em seguida, veio o Marcos Lima. Enquanto o resto de pessoal subia, o Alfredo e o Marcos preparavam o caminho para a próxima enfiada. Uma sequência de 4 grampos, num misto de pequenas agarras. Só que estava escorrendo muita água e resolvemos colocar alguns estribos. Chegaram também o Daniel e o Roberto. Enquanto aguardávamos os outros, acompanhávamos o outro grupo de CNM na Travessia da Neblina. Depois, chegou o Michael e, por último, o Vinícius.

Enquanto o Vinícius vinha subindo, puxei uma corda e já parti para o próximo desafio. O Alfredo, que já havia feito, me disse para seguir pela menor entrada, nesse caso, a de baixo. E para lá segui… Quando cheguei na entrada, falei: “Alfredo, você tem certeza que é por aqui?”. Tive que fazer alguns movimentos contorcionistas para poder entrar. Estava  bastante úmido o interior dessa passagem. A parede de trás era um pouco inclinada para frente, porém com bom apoio de pés, e isso facilitou um pouco as coisas. Entrei literalmente fazendo a dança do siri, bem agachado. Pois é nessa posição mesmo, se é que você conseguiu imaginar alguma coisa… Segui sem costurar (pois não há grampos) numa horizontal, até que pude ver mais acima, a luz no fim do túnel! Iniciei a subida, passando por uma pedra no estilo 127 horas, que nem encostei nela… Enfim, havia terminado. Puxei a sobra de corda, a fixei e avisei para os próximos subirem.

Por alguns minutos fiquei sozinho a contemplar toda aquela beleza. Depois de todo o esforço, uma sensação de conquista e alívio me tomaram conta. Nunca havia sentido isso antes… Sentei aos pés da Verruga e pude observar, do outro lado, o pessoal na Travessia da Neblina. Aproveitei para assinar o livro de cume e dar uma volta na ampla base do Nariz do Frade. Em seguida, chegou o Alfredo. Quando ele chegou, aproveitei para subir a Verruga. Antigamente existia um cabo de aço, mas hoje, só restam os grampos, na verdade 4. Além de dois grampos iniciais, o que é necessário para fazer o artificial da saída, tem um lance em livre obrigatório, acho que 3º grau até um grampo grande e antigo. Depois desses três, tem um lá no cume. Me encordei e segui para o lance. Coloquei duas fitas no primeiro grampo e mais uma no segundo. O que mais importava agora era chegar ao cume. Mais algumas passadas e estava no cume da Verruga do Frade. Agora sim missão cumprida, ou melhor, quase cumprida, pois faltava a volta…

O Marcos foi o próximo a subir e em seguida o Alfredo. Já passávamos das 14:30h e resolvi descer e agilizar o pessoal que faltava subir. Quando o penúltimo subiu, puxei uma corda e fui começar a preparar o rapel. Desci até ao platô no final da chaminé, montei a parada e esperei a galera descer. Aos poucos todos estavam lá, sete no total. Emendamos duas cordas e começamos o rapel até a base. Abri esse rapel, e rapidamente cheguei a base. Ali fiz um lanche e esperei a galera chegar. Ainda tínhamos muito trabalho, já era 17:00 h e com certeza, faríamos a trilha a noite. Quando todos já estavam na base e alguns já finalizando o lanche, fui com uma corda para fixar no Paredão Roi Roi e agilizar a descida. Aos poucos, a luz do sol foi acabando e como estava muito nublado, anoiteceu por volta das 17:30 h. Antes do último a fazer o rapel, já estávamos com a lanterna ligada.

Voltamos a andar e a trilha na parte mais baixa, onde as nuvens se concentravam, estava molhada, havia chovido um pouco e sentíamos que estava chuviscando, mas como a floresta é bastante densa, impedia de vermos alguma coisa. Levamos alguns tombos e acho que ninguém escapou… Fui seguindo na frente e em alguns pontos tive ir voltar para tentar achar o caminho correto. Mas seguimos e foi um alívio chegar à trilha do Sino, no local do antigo Abrigo 2. Descemos e fizemos uma parada na Cachoeira Véu da Noiva. Encontramos o grupo que vinha da Travessia da Neblina. Alguns desceram, outros preferiram descansar mais um pouco. Eu fui logo em seguida e caminhei sozinho até a Barragem, onde cheguei, exatamente 12 horas depois de começar. Peguei a trilha suspensa e fui descansar na Casa do Montanhista, onde rolava o evento da ATM.

Agora a missão estava cumprida! Valeu a todos por essa grande e inesquecível aventura!!!

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Trilhas – A Incrível Jornada de Uma Mulher Pelo Deserto Australiano, de Robyn Davison

Trilhas – A Incrível Jornada de Uma Mulher Pelo Deserto Australiano, de Robyn Davison

Trilhas – A Incrível Jornada de Uma Mulher Pelo Deserto Australiano, de Robyn Davison.

Por Eny Hertz

livro_022Robyn Davison nos relata a jornada de 2.800 km com uma narrativa que nos prende em todas as páginas, com aventuras do primeiro ao último capítulo. Ela ganha uma clareza e entendimento da terra ao aprender a depender dela.

 

“Sugestão de Leitura” publicada no Boletim CNM 2015-2.

Viciado no Perigo – Uma Autobiografia Sobre a Defesa da Vida Diante da Morte, de Jim Wickwire e Dorothy Bullitt

Viciado no Perigo – Uma Autobiografia Sobre a Defesa da Vida Diante da Morte, de Jim Wickwire e Dorothy Bullitt

Viciado no Perigo – Uma Autobiografia Sobre a Defesa da Vida Diante da Morte, de Jim Wickwire e Dorothy Bullitt.

Por Francisco Caetano

livro_024Mallory, Messner, Hillary, Norgay, Bonatti, Herzog, Lachenal, Rébuffat, Terray, a lista não é pequena mas citar qualquer um desses nomes não passa desapercebido por qualquer montanhista, do novato ao mais experimentado. Mas esse rol de alpinistas ilibados também conta com ilustres desconhecidos ou pouco conhecidos, que nem por isso deixam de ter grandes feitos em seus currículos e grandes aventuras em sua jornada, esse é o caso de Jim Wickwire. Primeiro americano a subir o K2, teve uma vida permeada de aventuras e feitos notáveis como um fantástico bivaque a incríveis ascensões em solo, mas também com algumas tragédias. Para conhecer melhor esse cara, seus feitos e fatos a dica que damos é a autobiografia intitulada “Viciado no Perigo” da Editora Manole, uma leitura emocionante, as vezes tensa, mas verdadeira, do jeito que todos montanhistas gostam.

 

“Sugestão de Leitura” publicada no Boletim CNM 2015-2.